Sunday, May 20, 2007

Viagens em primeira classe

Em Banguecoque ficámos apenas dois dias, o suficiente para ver de raspão um dos Palácios Reais e toda uma série de templos budistas. O budismo é de uma forca extrema neste país, estátuas de budas por todo o lado, até no caminho para o novo aeroporto. O nosso grupo era algo especial: muitos ficavam espantados pois éramos cinco investigadores, cada um com a sua nacionalidade e nenhum de nós a viver no seu país de origem – ora pois o multiculturalismo e globalização em acção.
Esta cidade, enorme, não deixa de ser uma interessante versão cosmopolita mas também algo sub-desenvolvida de outras capitais asiáticas. Uma cidade de milhões, com algumas infraestruturas irrepreensíveis, como o moderno e eficaz metropolitano, mas por outro lado o lixo e a pobreza grassam. Muitos farangs, em especial ingleses. Na verdade, por vezes, a Tailândia, em especial nos seus pontos mais turísticos, mais me pareceu uma ex-colónia europeia!
Banguecoque está repleta de irritantes tuk-tuks, um híbrido de motorizada de caixa aberta com táxi; a qualquer esquina, especialmente quando adivinham a presença de farangs (estrangeiros em tailandês), vemo-los surgir a recomendar lojas e sugestões de passeios turísticos (leiam os guias de viagens tipo Lonely Planet todos dizem – evitem os tuk-tuks!). Eles são como as moscas, muitíssimos e insistentes! E senão tivermos cuidado acabamos por gastar uma fortuna nas lojas de amigos, sócios e afins, onde, como por acaso, paramos durante os ditos circuitos turísticos de uma hora. Enfim, o que é preciso é ter muita paciência e negociar todos os preços, ficar bem claro onde queremos ir. Mas mesmo assim acabam por ser caros e os condutores não perdem oportunidades de tentar fazer uns desvios! Pois, queixem-se dos fogareiros! Venham pra Tailândia para ver como é que eles mordem! Isto era preciso guardar o dinheiro para a água e os repelentes de insectos!
Para umas vistas interessantes apanham-se uns barcos, que funcionam como taxis (tipo os vaporetos de Veneza). Por vezes perguntavam-me de onde era. Portugal. Portu-que? Sabe, aquele país ao lado da Espanha, na Europa. Ahhh! Raios, que humilhação! E de pouco valia dizer, o país do Figo (acho que de qualquer forma nestes dias é preciso dizer do Cristiano Ronaldo!). Detalhes aparte, muitos bazares onde se compra todo o tipo de marca e mercadoria pirateadas. Equipamentos de Mai Thai, o boxe tailandês, por toda a parte.


Depois de Banguecoque, dividimo-nos e eu, a Milica e a Chamini fomos para Chiang Mai, sita no norte. Comprámos passagens de comboio em primeira classe com dormida, e pensávamos nós que seguiríamos em compartimentos privados, ar condicionado, o luxo. Qual que! Chegámos e tudo o que nos deram foram uns os bancos que se desdobram para dar lugar a camas, e quanto a compartimentos individuais – nem sonhem - , o ar condicionado era uma ventoinha no tecto! Casa de banho é bom nem falar. E assim estávamos na primeira classe. Uma viagem pela noite fora mas que felizmente, com os meus tampões para os ouvidos e a máscara de noite (as luzes ficaram acesas) ainda deu para dormir uma horas. Chegados a Chiang Mai uma furgoneta do hotel onde ficámos veio-nos buscar. Entretanto, iam-nos dizendo que o campus da Universidade tinha sido cotado como o mais belo de todo o sudoeste asiático. Chegados ao hotel, não nos demorámos e começamos a deambular pela cidade. Ó tristeza! Aquilo mais parecia o Algarve no seu pior. Se Banguecoque tinha o seu quinhão de turistas e estrangeiros, Chiang Mai estava simplesmente apinhada, completamente invadida! Excursões para todos os gostos, bares australianos, ingleses, irlandeses, enfim estão a ver o filme, tipo Portimão ou Albufeira mas sem a praia. Ficámos apenas dois dias mas lá vimos mais uma série de templos (a esta altura já estava farto de tanto templo budista e mais as estátuas que pra lá andam). Numa das noites fomos ver um espectáculo de dança tradicional tailandesa onde também serviram jantar a preceito, típico. Foi o mais interessante da visita à cidade, com as danças das unhas e dos peneireiros, e tudo o mais.
Antes de partirmos, as miúdas queriam por forca experimentar massagens tailandesas. Ora como a maioria ganha em democracia, eu fui também. Ofereceram-nos um pacote de 2 horas: 1 hora de massagem de pés, 1 hora de massagem tradicional tailandesa. Para aqueles que não sabem a massagem a lá tailandesa é obra. Mais parece uma visita ao osteopata! É preciso ter uma certa flexibilidade pois eles puxam-nos e moem-nos e enfim, aquilo as vezes ainda dói e manda uns quantos estalos nas articulações. Mas no fim até que uma pessoa se sente bem. Seguimos de novo para Banguecoque onde no dia seguinte tínhamos de apanhar o avião para Ko Samui, uma das ilhas no Sul.

PS: Dentro de poucos dias estou em Lisboa; parto num tour da Europa por duas semanas – iupi!

Sunday, May 06, 2007

Alô, alô Banguecoque

Ora cá estou de volta das minhas mini-férias. Cerca de 6 horas de avião para cada lado e a Tailândia com um fuso horário de duas horas de diferença em relação ao Japão. Saímos de Banguecoque debaixo de chuva torrencial e aqui voltámos a Tsukuba para enfrentarmos uma irritante chuva miudinha.
Chego feliz de ter sobrevivido aos vorazes mosquitos daquelas bandas – estive a contá-las há pouco, picadas eram 17! E que insectos extremamente insistentes, só esborrachados é que desistiam! Enfim, mesmo picado, enfeitado de bolinhas vermelhas, o balanço é positivo.
Rewind...26 de Abril, chegámos (eu, a Milica e a Chamini) já de noite a Banguecoque, estava um calor húmido, daqueles que não deixa respirar. Esperávamo-nos um aeroporto novo, infelizmente longe de estar acabado, completamente funcional. Apinhado de turistas de todo o tipo, embora se note uma forte presença do clube dos mochileiros, peregrinos modernos à descoberta do sudoeste asiático. Á saída do aeroporto somos, de imediato, confrontados com filas caóticas de coloridos táxis (cor-de-rosa, laranjas, verde/amarelos, cores múltiplas, e espantem-se muito deles movidos a gás! A revolução do GPL está bem mais enraizada aqui do que em muitos outros países do primeiro mundo). Mas mais do que os táxis, aquilo que nos salta aos olhos é a ubíqua presença das imagens do Rei da Tailândia - até à exaustão, ao vómito. E pouco me importa que o considerem como um semi-deus, aquilo é uma doença, mais parece um caso de ditadura de personalidade tipo Turquemenistão. Nas ruas e estradas, amarelos, dourados, vermelhos, algum azul, são as cores dominantes.
Confortavelmente sentados num táxi rosáceo, depois de uma curta viagem de 20 minutos, avistámos o nosso hotel onde o Zsolt e a Ângela nos esperavam. Sito num típico bairro residencial de Banguecoque, escondido num beco quase impossível de encontrar, confundido na imensa desorganização urbana tão característica destas cidades asiáticas, um hotel-pensão aparentemente normal visto de fora, lá dentro todo um mundo diferente. O interior decorado a madeira, corredores que eram autênticos túneis recheados de trepadeiras, os quartos a parecer bungalows de praia (quase podia imaginar o mar ali a poucos metros!). Parece extravagante mas na verdade não chega a sê-lo, pois ali, no meio da cidade, mesmo com noite cerrada, deu para ver a luxuriante vegetação que fazem deste país uma quase contínua selva. Estas composições exuberantes são pois o pão nosso de cada dia na Tailândia. Olá Banguecoque!

Sunday, April 22, 2007

Filmezinhos de single malt

Kabuki é uma expressão sublime da cultura japonesa constituindo um dos três estilos característicos do teatro tipicamente japonês (os outros são Noh e Bunraku, para os curiosos: http://en.wikipedia.org/wiki/Japanese_theatre). Enfim, eu e mais umas quantas amigas partimos de Tsukuba e dirigimo-nos àquele que é o principal teatro de Kabuki em Tóquio, o Kabukiza. Uma sala tremenda, plena de historia e estórias, com rituais de backstage e uma tradição de teatro de quase século e meio (e também, diga-se, uns quantos incêndios, terramotos e bombardeamentos americanos, ao longo dos anos). Nós conseguimos preços reduzidos devido a uma promoção para estrangeiros e turistas. Foi assim que pagámos metade do preço normal para a sessão da tarde. Mas quando digo matiné, estou a referir-me a uma sessão das 15h00 às 17h00! Uns quantos intervalos e direito a jantar pelo meio. Muito tempo, não é? Mas acho que valeu a pena. A peca que vimos foi recentemente redescoberta, depois de passar séculos a ganhar pó num qualquer arquivo recôndito.
Decidiram portanto trabalha-la e, ao cabo de muito suor, o resultado é um trabalho que dura um dia inteiro de representação. No entanto, eles deixam-nos algum espaço para respirar, pelo que podemos assistir apenas a pequenos excertos (actos) em cada dia sem nos sentirmos demasiados perdidos. É como se o grande conjunto fosse composto de várias pecas. Estou a fazer-me perceber? Se calhar não.
Uma particularidade do Kabuki (pelo menos no tempo presente) é que todos os actores são homens. Entre estes há toda uma rígida hierarquia. Desde os que fazem o papel de mulheres e assim permanecem durante toda a sua carreira de actores, a outros que se especializam apenas em certos papéis (samurais ou padres, por exemplo), aos que apenas lá estão para mudar os adereços de cena. No meio disto, a generalidade do público faz gala ao ver Kabuki - um pouco como ir à opera na Europa. Toda a gente bem vestida, etc., lounge suits e formal casual, jeans OK, no trainers.
Entretanto, no outro dia foi dia de mais uma reunião do oxbridge club. Desta feita foi combinada uma prova de whisky single malte na embaixada britânica em Tóquio. Desta vez decidi convidar o meu amigo e colega indiano, Ujjal. Pelas 18h30 estávamos a chegar em Tóquio mais precisamente na entrada da embaixada. Esta parece mais uma verdadeira fortaleza e ao que me dizem, uma das maiores no Japão. Depois dos salamaleques de identificação, a prova decorreu bem e sem grandes sobressaltos aparte um ou dois japoneses mais esfusiantes e a esbracejar energeticamente.
Entretanto, ainda tentei ir assistir a uns filmes integrados num festival de cinema francês em Tóquio mas quando lá cheguei os bilhetes estavam todos esgotados! Enfim, tive de encontrar outra coisa para fazer na tarde de Sábado pelo que acabei no topo da Roppongi Hills Tower, uma das mais altas nesta megapólis. A vista é absolutamente fenomenal! Como estas coisas tem sempre algo de inesperado depois da visita ao museu de arte sito no último andar da torre, acabei por ser convidado para ir ver um desfile de moda. Foram-se os filmes franceses mas acabou por ser interessante mesmo assim.

Sunday, March 04, 2007

O (quase) triunfo das fitas

E assim fico mais velho, um ano. Posso voar até aos confins do sistema solar, viajar à velocidade da luz, mas isto só pára quando morrer. Há que tentar faze-lo portanto com qualidade. Mas não deixa de ser sempre um dia de fazer balanços (entre outros dias como durante o ano novo, quando se tomam daqueles resoluções com prazo de validade de pouco mais que uma semana – raramente resistem ao bolo-rei). Dobrada a casa dos 30, o que vejo é uma geração em que a maior parte de nós não está casada, não tem filhos, casa própria ou mesmo um emprego fixo, muitos vivem expatriados. Com que letra do abecedário nos rotularam?
Entretanto, tive uma inesperada prenda de aniversário – por duas vezes, uma das minhas fotografias foi escolhida como “runner-up” na competição de fotos científicas sobre o mundo à nanoescala. Estes concursos começam a ser quase ubíquos em conferencias que envolvem o nano e/ou microscopia. A ideia é tentar conjugar fenómenos científicos com arte. Aqui fica a imagem. O que é? Trata-se de uma nanofita de CdS (a espessura é da ordem das poucas dezenas de nm) a qual for deformada dentro de um microscópio electrónico. A imagem, depois de obtida, foi colorida com Photoshop, de tal forma que faz lembrar as explosões solares.

Sunday, February 25, 2007

Serendipity

A vida de expatriado tem coisas interessantes. Uma destas, porventura crucial, é sermos confrontados com a nossa capacidade de adaptação, de assimilar ditos choques culturais. Muitos daqueles que pela primeira vez se encontram estacionados num país estrangeiro experimentam tremendas dificuldades e, ao fim de uns poucos meses, talvez um ano, quando a sensação do novo se esvai e a saudade invade, desesperam por um rápido retorno. Quando decidi vir para o Japão, várias vozes me advertiram para o pior, que muito provavelmente não conseguiria enfrentar esta distante nação, de hábitos tão diferentes. Longe, quase um mundo de distancia, das minhas raízes. Sozinho, vir para o Japão viver, era duro, coisa de loucos. Tempus fugit, e passaram já quase seis meses desde que aqui cheguei. Devo dizer que, por ora, o balanço é positivo. Pontilhado por momentos de frustrantes barreiras comunicativas, de uma ansiedade constante relativa a atropelos dos inúmeros e invisíveis códigos de conduta japonesa. Mas os nipónicos são discretos o suficiente para fecharem os olhos, deixarem passar. Talvez seja por me encontrar numa situação algo privilegiada, uma vez que me encontro numa cidade de cientistas e rodeado de estrangeiros. Tenho um bom emprego (embora que temporário), vivo numa casa confortável, não me queixo do dinheiro que ganho (mais era bom, mas sempre o será, não é?). Ou talvez seja por encontrar ainda no dito período de graça quando sobeja o novo, ou talvez por esta não ser a primeira vez que estou a viver num país estrangeiro. A bem lembrar acho que a experiência de me mudar para Inglaterra em 2001 foi muito mais abrupta e stressante do que esta de vir habitar no Japão. Quaisquer que sejam as razoes, a verdade é que sinto-me bem aqui, tempo presente.
Falando um pouco mais sobre os códigos japoneses. Não deixa de me espantar a forma de eles se vergarem aos condicionamentos sociais, estes sobrepõem-se a qualquer pretensão individual. Por fim, temos a incapacidade do indivíduo de se impor como personalidade, o triunfo de uma sociedade amorfa onde movimentos reivindicativos e organizações de cidadãos tem reduzida expressão. Tudo isto parece resultar num nivelamento conformista onde qualquer ambição para além da média é uma extravagância rara, por vezes mal vista nesta sociedade extremamente hierarquizada. Será portanto natural que a criatividade seja um problema deste povo, a capacidade de impor o novo é fundamentalmente oposta à mentalidade reinante. Eu sei, são clichés o que escrevo, mas na realidade estes repercutem-se seriamente nas pessoas com que aqui me deparo. Uma interessante consequência disto é o Japão ser um país afável, sem grandes convulsões sociais, de reduzida criminalidade, onde tudo está organizado para a serenidade, a pouca confrontação. Na verdade, isto é como um jardim encantado onde uma pessoa, quase de forma inconsciente, se deixa paulatina e docilmente adormecer.
Mas já basta de divagações. Esta semana trouxe umas novidades – a primeira, um show de Flamenco (raríssimo por estas bandas) e depois, uma bem-vinda descoberta, o único Jazz-Bar cá do sítio. E com música ao vivo todos os Sábados! Entretanto, cá vai mais uma foto dos produtos das minhas aulas de caligrafia. Desta feita, expuseram na entrada da residência os nossos rolos de caligrafia – o meu é o segundo a contar da esquerda, com a palavra “Serendipity”.

Sunday, February 11, 2007

Vida conjugada - Passado, Presente e Futuro

Amanha é feriado.
Ainda ontem me passeei por Tóquio. Cheguei já tarde, sem tempo para fazer tudo o que queria. Tóquio também tem um Museum of Modern Art, no seu acrónimo a lembrar o de Nova Iorque. Depois de outras deambulações, encontrei a entrada pelas 4.30. O museu fechava às 5. Fiquei sem tempo para explorar os meandros artísticos do MOMAT.
Antes do MOMAT, passei pelo Museu Filatélico na intenção de acabar a secção japonesa da minha intermitente colecção de selos. Finalmente posso dizer que esta temporada no Japão já tem a sua marca ritual. Há uns tempos atrás, coisa de dois anos, comecei esta disciplinada colecta. Não lhe posso chamar um hobby pois não se estende continuamente no tempo. É uma colecção composta de momentos dispersos. A ideia é simples: em cada país que tenho vivido por mais de um mes, tenho recolhido todos os respectivos selos comemorativos de Ciência. Uma forma diferente de fazer um mapa dos sítios por onde tenho passado. Por ora, é assim mesmo, o tema limita-se às ciências exactas, por vezes tocando astronomia, biologia e medicina. Porque selos e porque Ciência? Selos, pois ocupam pouco espaço, não são caros e por vezes dizem-nos muito acerca das sociedades que os emitem. Ciência pois para além de ser o que faço (duhh!), achei que seria interessante fazer um levantamento gradual, embora que extremamente limitado, de como cada nação celebra as suas descobertas científicas. Talvez possa escrever qualquer coisa sobre isto daqui a uns anos.
Agora, estou a tentar encontrar uma razão para não sair, hoje choveu, estou com tosse e tenho o joelho num bolo. Com isto, acho que vou, infelizmente, perder a época de ski. Toda uma série de excursões, diferentes visitas e tours a serem organizados e eu sem poder tomar parte! Raios, a ver se para o ano que vem tenho mais sorte.

Tuesday, January 30, 2007

Tinta da China

Mais uma noite de tremores, daqueles só para chatear um gajo. 3 da matina de segunda-feira, ferrado no sono, quando sinto a minha cama tremer por cerca de 30 segundos. Nada de muito forte mas o suficiente para acordar despercebido e espantar o sono por umas horas! Enfim, temos de viver com estas coisas.
Nestes dias tenho andado ocupado a experimentar umas aulas de caligrafia japonesa. Dadas aqui na residência, vamos ter três sessões onde tentaremos copiar caracteres japoneses (kanji, hiragana e katakana) para o papel tipo mata-borrão. Como tinta, usamos sumi. O modo de preparação do sumi tem um certo cerimonial pois temos de raspar um bloco sólido numa placa própria usando dissolvente e uns movimentos ora de vaivém, ora circulares. Portanto, há uma receita a seguir e a preceito. O resultado final parece-se muito com tinta da china. Para aqueles que viram o filme de Peter Greenway “Pillow Book” podem contemplar um pouco o quão artístico e intrínseco da cultura asiática representa a escrita de caracteres. Caligrafia, mais que uma questão cultural, era usada antigamente para ilustrar o estatuto social e intelectual nas populações chinesa, japonesas e coreanas. Voltando ao presente... bem me esforço para reproduzir aqueles traços redondos e fugidos. Mas não me serve de nada bramir gestos inúteis com o pincel e esparramar caoticamente a tinta nas folhas A4 – há, de novo, uma forma e ordem correcta de os fazer, de quanta forca aplicar, de como posicionar as mãos. Cada fio do pincel tem de ser domado, a forma como cada um daqueles traços está desenhado é a diferença entre uma obra de arte e um rabisco sofrível. Caligrafia, agora percebo, é uma arte maior.
E foi nestes afazeres que no último Sábado acabei por ir a um museu dedicado ao poeta zen Mitsuo Aida em Tóquio (o qual era também admirado pelas suas qualidades de calígrafo). Devo dizer que muito do que estava escrito me passou despercebido (kanjis não são o meu forte!) - tinham umas traduções em inglês mas estas pareceram-me bastantes fracas na forma. Enfim, para mim foi mais uma questão de apreciar a beleza estética de bem escrever. Este museu fica no Fórum Internacional de Tóquio, o qual já aqui descrevi. Esta visita foi, na verdade, um compasso de espera para ir assistir a um leilão de arte moderna a convite da Keiko. Os lotes eram sobretudo arte moderna japonesa, séculos 19 e 20. Alguns exemplares interessantes e uma série deles a chegarem a uns valores exorbitantes. Os lances estavam tão rápidos que uma pessoa até tinha medo de se mexer não fosse o diabo tece-las e o homem do martelo enganar-se e pensar que estávamos a oferecer uns valentes milhões de ienes pelo colorido quadrado exposto à nossa frente!
Gambette kudasai!

Monday, January 08, 2007

O imperador do Japão

2 de Janeiro de 2007. Hoje foi dia da Família Imperial do Japão vir abençoar o novo ano assim como os seus súbditos. Esta é uma das raras ocasiões durante a qual se pode entrar nos recintos mais interiores do palácio e ver o Imperador “ao vivo e a cores”. A intervalos regulares de 50 minutos a Família vem até à varanda forrada de vidros à prova de bala e durante cerca de 10-15 minutos, polvilhados com pequenos discursos do Imperador, ali ficam a saudar o gentio. Escusado será dizer que quando ali chegámos, pelas 10 da manha, já uma multidão se agitava nas redondezas do palácio. Um forte dispositivo de segurança assegurava que ninguém entrava sem ser revistado. A porta do palácio e para acalmar os impacientes súbditos, alguns seguranças andavam a distribuir bandeirolas japonesas. Eu também recebi uma mas a bem-dizer foi logo para a mochila. Parece-me um tanto estranho andar a agitar bandeiras de outros países que o meu! Enfim, agradecido pelo recuerdo mas é só pra enfeitar a casa.
Finda a cerimónia dirigimo-nos para Ueno. Entretanto, numa das estacões de metro junto ao palácio, deparámo-nos com corredores repletos de imagens dos filmes do estúdio Ghibli (mais conhecido por fazer filmes de animação japoneses como A Viagem de Chihiro). Em Ueno, a nossa meta era encontrar umas termas especiais que, segundo o guia da Christina, eram algo especial pois as águas têm cor negra! E para ficar desconfiado, não? E depois, água de cor negra em Tóquio não deve ser assim tão difícil de encontrar! Enfim, ela não gostou muito das minhas piadas... Lá andámos (repetidamente) às voltas por Ueno até que finalmente tivémos de parar num posto da polícia onde perguntámos se nos podiam ajudar a encontrar as ditas. O prestável agente não sabia, puxou dos mapas e cartas, telefonou para as informações, enfim ainda passou uns bons 5 minutos até dar com o raio das termas ali do bairro. Em poucos minutos demos com um sítio recôndito, escondido numa ruela de casas de habitação. E qual o nosso desgosto quando ali chegados, demos de cara com uma porta fechada! Devíamos ter adivinhado pois se por aqui muitas das lojas e comércio fecharam de 31 a 3, porque não as termas? Ficou a vontade de tentar de novo. Tóquio tem sempre algo para descobrir.

Saturday, January 06, 2007

O-misoka 2007

Chegámos a Asakusa com tempo para gastar. Pouco passava das nove da noite mas já as ruas, ainda decoradas de Natal, se encontravam cheias de uma multidão ávida para receber o novo ano. A Christina (EUA), a Chamini (Austrália) e eu tínhamos decidido assistir àquela que é porventura a mais famosa celebração religiosa da passagem de ano em Tóquio. No centro do bairro de Asakusa, o complexo religioso que alberga o imenso templo budista Senso-ji, é uma referência perene para japoneses e turistas.
Saímos de Tsukuba sem jantar pelo que decidimos parar num restaurante de sushi. Uma casa de pasto banal, daquelas com um tapete rolante de onde uma pessoa retira pires ao sabor do apetite e os empilha como num jogo de Lego para controlar o que se vai comendo. Antes, passámos pela entrada do complexo onde as massas afluíam ordeiras. Imersas no frio seco e límpido de Dezembro, corredores pontilhado de luzes festivas, filas de gente esperavam pela sua vez para poderem entrar no Senso-ji quando este abrisse as suas portas daí a três horas, à meia-noite.
Dez horas e o restaurante fechou, para nosso desgosto. Entrámos no complexo curiosos pelas numerosas barracas de venda ali dispersas. Brinquedos, souvenirs, amuletos, roupas, comida e bebida, ... Engraçado como me lembraram na disposição aquelas que todos os anos povoam a Feira do Livro no Parque Eduardo VII - saudades de Lisboa.
Finalmente, à falta de melhor, seguimos o rebanho, juntámo-nos à multidão expectante. Ali esperámos, entre estórias e jogos tentando esquecer o tempo lento, teimoso. Passou-se hora e meia e o gentio engrossava a olhos vistos. Entretanto conhecemos uma rapariga de Zagreb que ali tinha vindo a conselho de amigos. A nossa nova companheira informou-nos de uma cerimónia que deveria ocorrer ali no recinto, talvez com mais interesse que calcorrear um templo de uma religião da qual nenhum de nós era praticante. Honestamente, fiquei aliviado por poder fugir da horda compacta e imóvel. Assim andámos a explorar o complexo até encontrarmos o sino de Senso-ji. Este sino é um importante símbolo do templo e, durante as celebrações do ano novo (o-misoka), é tocado 108 vezes (chamam-lhe joya-no-kane). Porquê 108? Segundo os costumes budistas 108 badaladas representam outros tantos defeitos humanos que expiamos (inveja, ira, desejo, ...). Uma lavagem espiritual, portanto. Desta feita, a cerimónia começou pouco depois da meia-noite terminando lá pela 1h30. Cada badalada foi executada por um cidadão diferente, normalmente membros ilustres da comunidade local. Entretidos com o sino, quase esquecemos o templo. Tinham aberto as portas e ondas de gente, controladas pela sempre zelosa forca policial, subiam a par e passo os degraus que os levavam até ao interior do Senso-ji.
E assim se recebeu 2007. Feliz ano novo!

Monday, January 01, 2007

Ir a banhos em Atami


Os Onsen (ou banhos termais, spas, como lhes queiram chamar) são extremamente populares aqui no Japão. Sendo este país uma cadeia de ilhas volcânicas, encontram-se registadas oficialmente cerca de 14000 fontes hidrotermais - muito por onde escolher, portanto! Há-as de todo o tipo e para todos os gostos: desde as simples termas de água doce, até às de água salgada, ácida ou sulfurosa. Este costume de “ir a banhos” começou há cerca de um milénio atrás. Inicialmente estava limitado às classes dirigentes e aristocracia. No entanto, quando os senhores de guerra descobriram as capacidades terapêuticas das fontes o seu uso cresceu consideravelmente até que, durante o período Edo, se popularizou por todas as camadas da população japonesa.
Três de nós decidimos ir explorar parte desta tradição nipónica. Para tal reservámos um hotel especializado sito na península de Izu, mais precisamente na cidade costeira de Atami. Ali chegados a primeira coisa que vimos ao sair da estacão de caminhos-de-ferro foi uma espécie de banhos para os utentes do terminal multi-modal. O pessoal senta-se ali a aquecer os pés na água durante uns agradáveis minutos, isto até o autocarro chegar. Bem melhor do que ficar a bater os dentes numa qualquer paragem! Ainda nos sentimos tentados...banhos para os pés ali, de graça e para todos, num dia frio e límpido de Inverno como aquele...mas enfim, a prioridade era dar uma vista de olhos pela cidade e tentar descobrir o posto de turismo. Como nenhum de nós é fluente em japonês precisámos de ajuda para encontrarmos o caminho para o hotel. Saídos do posto, fomos almoçar a um restaurante por eles recomendado. O conselho revelou-se acertado pois fomos não só bem servidos mas a comida era óptima. Atami é uma cidade costeira com uma forte tradição de pesca. Logo, como podem imaginar, o peixe era do mais fresco e da melhor qualidade (e assim foi por toda a estadia). No caminho para o hotel, ainda tivemos tempo para visitar umas arcadas comerciais onde vendiam uma miríade de doces e comida japonesa. Chegados ao hotel fomos rapidamente encaminhados para o nosso quarto. Um quarto tipicamente japonês com uma série de tatamis a cobrir o chão. Vista de um oitavo andar face ao mar, um espelho azul transparente, de fundos rochosos. Pouco depois, saídos do quarto para explorar o hotel, a certa altura quase no perdemos na confusão dos imensos corredores. Imaginem-se num enorme complexo onde todas as direcções estão em japonês, onde os funcionários só falam japonês, onde raramente nos cruzamos com outros clientes, onde a recepção se encontra no sexto andar (só depois de visitarmos quase todos os andares é que nos apercebemos desta! É que o hotel fica numa encosta.). Por fim, lá encontrámos o nosso propósito: as salas dos banhos. A principal tinha uma série de diferentes compartimentos e piscinas onde a água se encontrava a diferentes temperaturas (desde água fria até água a uns bons 45 graus). Ali mesmo ao pé uma escaldante sauna onde consegui ficar apenas 3 minutos. Neste hotel em particular, não havia banhos mistos embora estes sejam relativamente comuns por todo o Japão. Nas salas andávamos todos em pelota. Dão-nos umas reduzidas toalhas (tipo daquelas para secar os pés) com as quais somos supostos lavarmo-nos, secarmo-nos e se necessário cobrirmo-nos. Regra de ouro nestas coisas: antes de metermos sequer um dedo nos banhos temos de tomar um duche, ali na sala, para mostrar a todos os outros que estamos limpos para entramos na água comunal! Mas melhor foi realmente a piscina exterior. Senão tentem imaginar: água a cerca de 40 graus, temperatura exterior de 10, vista fabulosa para o mar, num dia límpido e soalheiro de Inverno. Piscina tipo rústica, ladeada de pedregulhos, quase no topo da colina. Lindo!
Como estávamos em regime de meia-pensão tivémos direito a um memorável jantar tipicamente japonês. Acreditem ou não para por a aparatosa mesa (para apenas três pessoas) demoraram alguns 15 minutos! Enfim digamos que o jantar era no mínimo copioso. Tínhamos ali de tudo! Desde Nabe de marisco até Shashimi e mesmo rosbife! Muito arroz, noodles e chá verde a acompanhar. Foi uma barrigada como já há muito não experimentava!

Sunday, December 31, 2006

Domingos de céu aberto

Depois das folhas caídas fecha-se mais um ciclo no movimento perpétuo que é a Vida.

Buracos na parede


No outro dia fiz mais uma excursão a Tóquio. Desta feita motivado pela Festa de Natal da Oxbridge Society a qual decorreu na International House of Japan, sita em Roppongi. Umas poucas horas de conversa e bufete japonês, com comentários à mistura sobre a contratação de MBAs Eslovacos por parte de companhias japonesas (mão-de-obra qualificada preço da chuva porque para eles aqui fica muito mais baratos que os locais ou outros como europeus ocidentais). Findo o jantar andei a passear por Tóquio e deparei-me com o extraordinário festival de luzes que já falei anteriormente. Palmilhei uns bons km até que finalmente fui-me instalar em Shibuya num daqueles tão estranhos e apregoados hotéis-cápsula japoneses. Estes hotéis foram pensados para os workaholics japoneses aos quais muitas vezes nem tão pouco resta tempo para irem a casa e mudar de roupa! Vêm para aqui, deixam os sapatos na recepção, recebem uma chave e toca de ir lá para cima onde está um buraco que mais parece um gavetão de cemitério e que é o lugar onde supostamente tem de pelo menos tentar dormir. No caso do meu hotel era uma torre de 10 andares onde 6 destes tinham uma dezena de cápsulas cada. Cada um destes “quartos”, que são na realidade uma só peca de plástico moldado, tem toda uma parafernália de equipamento áudio-visual ali ao esticar de um braço. O espaço é pouquíssimo, mal dá para nos voltarmos no colchão (gostava de ver um americano médio, daqueles que adoram BigMacs no McDonalds, a contorcer-se nestas cápsulas!). O positivo da coisa é que está tudo preparado mesmo para o cliente mais incauto - desde escovas de dentes até camisas de executivos. Num dos andares situam-se os banhos públicos. Ou seja, entra-se para uma enorme sala forrada de mosaicos e ladrilhos com uns bancos de brinquedo onde uma pessoa se senta e se lava. Depois do duche, e uns passos adiante, estão dois tanques, um com água a 17 graus e outro com água a 40. Numa sala contígua, a sauna. Passam-se ali uns bons minutos a relaxar. E se isto não for suficiente pode-se sempre ir até à sala onde tem uma série de cadeirões de massagens automáticas. Tenho reparado que estas poltronas são extremamente populares por aqui no Japão. Sentamo-nos e mediante um telecomando podemos seleccionar ciclos de massagens para as pernas, pescoço, costas, etc. tudo ali controlado ao ritmo de um clique de botão. Novas tecnologias e engenhocas! Depois de tanto relaxar pensava que em 5 minutos estaria ferrado no sono. Acomodei-me ao meu buraco, e bem tentei dormir mas não consegui. Toda a santa noite, gente a ir e vir, a ir e vir, um constante vaivém de pessoal, barulho etc. Giro para experimentar uma vez mas uma e apenas uma só vez!

Bonenkai 2006


Sunday, December 24, 2006

Roppongi lights 2


Roppongi lights 1


Feliz Natal, Feliz Navidad, Joyeux Noel, Merry Christmas, tra-la-la-lala

20 dias sem actualizar o blog e... paff, estamos praticamente no Natal!
Tempo de família, de boas acções, de gastar muito dinheiro, beber muito e comer mais ainda, todos juntos para uma das mais simbólicas festas do mundo ocidental. Por estes lados, poucos são os que realmente festejam o Natal. No entanto, a julgar pelas ubíquas decorações, diríamos serem os japoneses os mais fervorosos adeptos da quadra. Mas não, ficam-se pelo lado materialista da coisa. Ou então, saem-se com comentários como o do recente manifesto dos estudantes universitários chineses que exulta o povo a não se deixar hipnotizar pela fábrica mercantilista e hipnotizadora da cultura ocidental – Pai Natal põe-te a pau senão ainda levas um valente balázio de um destes jovens!
Mas falava eu das decorações – Tsukuba, Tóquio, ao cair do sol, isto são ondas de luz que nos atingem ao virar de cada esquina. Alguns dos arranjos são autênticas obras de arte como as que eles têm em Roppongi. Muito para além dos comparativamente paupérrimos esforços de árvores enfeitadas e esparsas faixas de luzes penduradas nas paredes. Aqui são jogos de luz de cores outonais ou azuis/brancos a puxar a neve que teima em não cair, tudo em LEDs, ou não fosse o Japão o país-farol da iluminação de estado sólido.
Entretanto, nos escritórios, laboratórios e demais locais de trabalho é usual que o chefe organize uma festa a que eles aqui chamam “Bonenkai” o que traduzido dá qualquer coisa como “esquecer o ano”. Tem piada, acho. Portanto, o propósito da dita festa não é celebrar o Natal, não é celebrar o ano que virá na esperança de prosperidade, etc. mas, pura e simplesmente, esquecer o raio do ano que está quase a acabar, afogar mágoas por negócios perdidos – uma forma do chefe vir dizer “Olhem lá pessoal, tenho muita pena, mas este é mais um daqueles para esquecer”. E toca de se encharcarem de sake. Claro que antes ouve-se o sermão do chefe tipo: quem vai ao volante não tem direito ao sake. Porra, também é demais! Por um lado o chefe que nos diz isto é pra esquecer, depois mete-nos o sake ali à frente do nariz e por fim sai-se com o chavão para não tocarmos no álcool (diga-se de passagem que aqui a lei é dura! Os japoneses têm um sistema de pontos bem severo e para mais recentemente tem havido imensos comentários sobre todo o tipo de tragédias de drink-driving nos telejornais). Mas os que podem o mais natural é continuarem depois a festa num qualquer bar de Karaoke, aos berros a um microfone e passa-lo de mão em mão como nos bons velhos tempos do Marco Paulo e “Eu tenho dois amores”.
Mas no final de tudo isto, Bonenkais e luzes aparte, o pior da estória é que no dia 25 de Dezembro vou ter de ir trabalhar....arrrggggg!

Monday, December 04, 2006

Domingos de céu aberto

Pátio da Ninomiya House, onde num Domingo soalheiro, as folhas gotas d'ambar nos embalam com jogos de luz

Sunday, December 03, 2006

Taskete! Kaji-desu!

Continuando no tema das comezainas, sabiam que os portugueses são responsáveis por dois dos pratos mais populares no Japão? Tempura (um cruzamento de peixinhos-da-horta com jaquinzinhos fritos em panado) e Tonkatsu (o qual não é mais que um bife de porco panado). Deixámos por cá muito mais do que por vezes se pensa! E contrariamente ao que vivi em Inglaterra e Canada (é difícil acreditar mas encontrei gente que nunca tinha ouvido falar de Portugal!), por aqui o nosso querido rectângulo à beira-mar é um dos países que eles estimam e, até hoje, ainda não passei pela humilhação de ter de dizer “Sabe, aquele pequeno país ao lado da Espanha...não, não é uma província espanhola!”. Mas enfim, se estiverem mesmo interessados em conhecer um pouco mais sobre cozinha japonesa, isto é para além do que o que usualmente se come nos Teriyakis, o melhor é lerem a página na Wikipedia (http://en.wikipedia.org/wiki/Japanese_cuisine).
Adiante....Sábado, 2 de Dezembro de 2006, 9h30...soa o alarme de incêndios e dos altifalantes embutidos em cada apartamento sai uma mensagem gravada, bilingue, pedindo aos residentes para calmamente abandonarem o prédio. Funcionários, famílias, carros de bombeiros...um frenesim pouco habitual num sábado de manha...Situação: simulacro de incêndio. A manha de ontem foi dedicada aos procedimentos de emergência em caso de incêndios ou catástrofes naturais. Interessantes foram as mensagens a pedirem voluntários para participarem nesta acção. Com o aproximar da data lia-se um claro desespero da administração nas mensagens que afixavam nos elevadores. Ao ponto de oferecerem bolachas e outro tipo de brindes para quem aparecesse! Incrível...cá para mim, isto deveria ser qualquer coisa que, bem ou mal, todos deviam ser obrigados a participar. Pelo menos, no primeiro ano de residência (os simulacros são realizados uma vez ao ano). Aqui é tudo voluntário, muito democrático. Resultado: num universo de cerca de 300 indivíduos, éramos cerca de 30 a ouvir as explicações dos bombeiros e a aprender como chamar ambulâncias – contrariamente a outros, eu não estou à espera que o pessoal dos serviços de emergência saiba falar inglês!
Inté.

Saturday, December 02, 2006

Gastro-gorja

A gastronomia nipónica anda mal representada - os restaurantes na Europa servem conceitos adulterados, pratos de inspiração dúbia e menus em desalinho. Assim nos alimentavam os noticiários esta semana. Parecia que estava a reviver o debate em Inglaterra sobre a qualidade dos restaurantes italianos e como a Secretaria de Turismo Italiana queria controlar todas as casas de pasto no Reino Unido através de certificados!
Europa...a oferta até varia consoante os países mas, a bem dizer, a generalidade dos clientes fica-se pelo sushi e uns potes de sake, né? Nada de muito exótico ou verdadeiramente aventureiro. E depois, uns bolos de arroz com atum cru são estupidamente caros seja em Portugal ou Inglaterra (e ao que parece em Londres podem inclusive vir com uns pozinhos de plutónio misturados – uma variedade russa importada por e para esquivos connaisseurs!).
Comer fora amiúde, aqui em Tsukuba, é uma realidade palpável. Temos os salary-man que, a altas horas da noite, páram por uns poucos minutos para uma refeição a caminho de casa, temos jovens e famílias, casais enamorados ou grupos de estrangeiros estridentes, temos clientes de todos os géneros e feitios. A angústia financeira é quase inexistente – muita escolha (e não estou a falar de McDonalds) e sobretudo barato, pechinchas autênticas para quem vem habituado aos preçários ingleses. Juntem a isto o alívio de não ter de passar pelo eterno embaraço, no fim de cada refeição, com contas feitas, da questão sussurrada: “Já agora, deixamos uma gorja para o empregado ou nem por isso?” Pois, tem de se deixar qualquer coisa assim visível não vão eles pensar que somos uns pindéricos; mas também não exageremos que o bitoque fica caro e o país está em crise....ora, boas-novas, isto aqui pura e simplesmente não existe....não há gorja pra ninguém e prontos!, todos vamos para casa contentes! Não, não é que os japoneses sejam todos uns somíticos, ou um problema de andar a contar centavos - é uma questão cultural. Não se ferem sensibilidades alheias (os empregados poderiam pensar que os estamos a humilhar) nem se passa pela terrível interrogação do quanto se deve deixar (o que para o japonês médio seria um pesadelo). So, no tips!

Monday, November 27, 2006

Atum com outros 2