Tuesday, November 13, 2007

A arte dos samurais – policia e Tarantino.

Na senda das actividades culturais para cientistas estrangeiros (organizadas pelo NIMS), houve uma classe de introdução ao Kendo. Para quem não saiba, esta é uma forma de arte marcial que tem origem por volta do sec. 12 com os primeiros samurais do período Kamakura. Tem hoje uma enorme popularidade sendo uma das principais manifestações culturais e desportivas japonesas. A aula decorreu no ginásio do quartel da polícia de Tsukuba. Para além de nos emprestarem as espadas (uma espécie de cana de bambu), pudémos também vestir o uniforme e armaduras usadas nos combates desportivos de Kendo. Apenas duas horas, logo muito pouco se aprende, mas deu para dar o gosto do que aquilo é. Escusado será dizer que nem sequer vi a espada do instrutor quando fizemos uma simulação de combate. Muito, mesmo muito rápido, se fosse a sério estaria despedaçado em menos de cinco segundos!
Recentemente andei a explorar os subúrbios de Tóquio. Há cerca de duas semanas houve o Tokyo Motor Show. Este certame bianual estava repleto de concept-cars e novos modelos, numa presença massiva dos construtores japoneses, a jogar em casa. Americanos, gigantes como a GM ou Ford, nem vê-los! O tema do certame foi o ambiente e os híbridos. Carros movidos a combustíveis alternativos para todos os gostos - com motores a etanol, a gás, a hidrogénio, híbridos, electricidade, etc...uma imensidão de escolhas. Algumas excitantes surpresas como seja o novo X6 da BMW, um monstro híbrido que certamente vai dar muito que falar. A secção das motas era um tanto pobre. Pouca coisa em exposição e nada de verdadeiramente fantástico. Engraçado foram as novas proposições para veículos motorizados que se mais parecem umas poltronas ambulantes e que fazem a vez de carros para cobrir curtas distâncias. Um conceito engraçado mas de momento não mais do que isso. Muito gente também nos stands da Lamborghini, Ferrari e Maseratti.
Com o fim-de-semana em cheio, e numa perspectiva diametralmente oposta, no dia seguinte fui visitar a Disneylandia de Tóquio. Nunca tinha entrado num destas Megaparques da Disney que na verdade mais parecem cidades de faz-de-conta. Claro, uma imensidão de crianças, algumas vindas de tão longe como a Coreia do Sul. Este parque é um êxito regional! Lá estávamos, uns quantos trintões ali no meio da miudagem....mas não éramos os únicos! Assim foi que passámos o dia a apertar mão ao Pato Donald e companhia. Fui como um retorno à infância!
A terminar as aventuras na capital, fui ver um concerto de, entre outras, Carole King. Uma senhora, autora de clássicos como “You’ve got a friend” ou “It’s too late, baby”. Daquelas canções que crescem connosco e as levamos pela nossa vida fora. Depois do concerto ainda houve tempo para parar no Gonpachi de Roppongi. Talvez o nome por si só não vos diga nada, mas se vos dizer que fui neste restaurante que o Tarantino tirou a inspiração para as cenas de luta de um dos Kill Bill... talvez possam compreender o porque de muita gente, em especial estrangeiros, passar por lá (ao que dizem até o Bush passou por lá!).

Monday, November 12, 2007

Nas grutas de Abukuma

Passou Outubro, está feita a reentrada para aqueles que se regem pelo calendário escolar/académico. Como não podia deixar de ser recomecei o meu curso de Japonês – básico ainda! Mas com a vantagem desta feita de ser gratuito e nem sequer precisar de sair do laboratório. A papinha toda feita, as aulas são no NIMS. Pode ser que quando deixar este pais possa finalmente construir umas poucas frases em japonês. Há umas semanas atrás, participei junto com uma cambada de franceses de Tsukuba, numa jornada de ciência dirigida a investigadores francófonos. Como o tema era geral (desde filósofos a físicos) o interesse foi mais pelo convívio que outra coisa. No entanto, no final do dia, cortesia da embaixada francesa e do CNRS, houve comes e bebes com sabor francês. Escusado será dizer que o vinho era bom e o queijo melhor ainda! E para meu espanto não fui o único tuga que se infiltrou no colóquio!
Nessa mesma semana, no Sábado, um dia chuvoso (tufão a passar ao largo do Japão), houve o passeio anual organizado pela administração da Ninomiya House. No ano passado fomos até Yokohama. Este ano levaram-nos até Mashiko e as grutas de Abukuma. Infelizmente o tempo não ajudou nem um bocadinho – todo o dia a chover por causa do tufão! Mashiko - esta pequena vila é particularmente conhecida no Japão pela qualidade da sua cerâmica e porcelana. Não será pois de admirar que espalhadas pelas várias ruas centrais encontravam-se correntes de vasos, copos, pratos, convidando a entrar nos muitos ateliers locais. Mas por entre chuvas e chapinhancos, ainda pudémos fazer o gosto as mãos experimentado um curso de cerâmica ad-hoc. Hora e meia a amassar barro, dizem que mandam a obra-prima, já cozida, em Dezembro. Abukuma – para lá chegar, precisámos de mais umas 2 horas de autocarro.
A entrada fica situada no meio de uma serra de montanhas impecavelmente arborizadas. Não fosse a bruma que lhes cobria o topo, a vista do miradouro teria sido fenomenal. As árvores começavam a mudar a folhagem e um mar vermelho estendia-se aos nossos pés. O mau tempo motivou-nos a seguir de imediato para o estável clima das grutas. Muitas formações rochosas, na sua maioria de calcário mas longe de serem tão impressionantes como as cavernas marmóreas que visitei em 2006 na Itália. Em suma, saímos de Tsukuba pelas 7 da manha, estávamos de volta pelas 9 da noite. Entretanto mais de 400 km de viagem feitos.

Tuesday, October 16, 2007

Entre montanhas e templos

Durante este último mes houve tempo para uma série de coisas. Entre elas, continuo a minha classe de pintura japonesas e agora posso confidenciar que já realizei uma “obras-primas” tais como melancias, inteiras ou as talhadas, montanhas e ramos de cerejeiras, e a classe prepara-se para o concurso anual de pintura cá do sítio. Entretanto a Mariana e a Kiran vieram visitar-me de Inglaterra. Deixaram o frio e a chuva de Cambridge para virem passar uns dias no Japão. Como havia um de fim-de-semana prolongado nessa altura andei uns dias com elas.

No primeiro dia, elas acabadas de chegar, dirigimo-nos para Hakone. Esta é uma região muito apreciada pelos japoneses que amiúde aqui passam os dias de fim-de-semana ou ferias. É especialmente famosa pelo enorme lago e pela vista soberba do Monte Fuji (quando está bom tempo, o que infelizmente não foi o caso!). Pernoitámos num Ryokan (hotel tradicional) com uma série de onsens (banhos termais) e onde todos os quartos eram do tipo japonês. O jantar foi-nos servido no quarto e posso-vos dizer que foi realmente copioso (já aqui falei destes repastos nos Ryokan há um ano atrás quando fui a Atami). Na manha seguinte, comprámos um passe e demos a volta a toda a região envolvente de Hakone. Foi um ver-se-te-avias sempre a mudar de transportes e a tentar fugir a chuva miudinha que caía. Assim, saímos do hotel, apanhámos o autocarro, logo seguida atravessámos o lago Ashino-ko num barco tipo navio-pirata (muito, mas mesmo muito kitsch), e já na outra ponta apanhámos o teleférico para Gora. Entretanto, parámos nas furnas locais que constantemente expeliam água sulfurosa, não fosse esta uma região vulcânica activa. Nesta água cozem a especialidade local, ovos negros. Tem um gosto um pouco diferente mas nada de extraordinário - mais marketing que outra coisa. Chegados a Gora, foram mais dois comboios até Hakone. De seguida, subimos até Takayama. Mas aquilo foi mais uma tragédia para lá chegar – uma viagem que demora normalmente 2 horas, fizémo-la em cerca de 6! Isto porque chovia torrencialmente e eles estavam com uns problemas técnicos - pois é, mesmo aqui no Japão os comboios também se atrasam! Passava da meia-noite, quando o nosso anfitrião nos abriu as portas do templo budista onde fomos dormir. Só mesmo um monge para ter a paciência de nos esperar! Embora austeros, os quartos ainda expeliam a vivência dos acólitos que ali passam a maior parte do ano. Foi engraçado sobretudo em comparação com o luxo do Ryokan da noite anterior. Takayama é uma pequena cidade com muitos turistas que conserva muito da atmosfera do Japão de antigamente. Fica rodeada de montanhas, os chamados Alpes Japoneses. Na culinária tem um tipo de bife delicioso, chamado bife de Hida – experimentei este num sushi, ou seja foi como se tivesse a comer pastrami com arroz. Depois alugamos umas bicicletas para explorar os arredores da cidade. O mais impressionante foi ver uma série de casas antigas, em madeira, no parque de Hida-no-sato (património Unesco) e poder viver um pouco do Japão de há uns séculos atrás. Cada casa era diferente, com traves mestras grossíssimas e um odor ubíquo a fumeiro (dizem que servia para conservar as casas em boa condição, contra humidade, insectos, etc.). Para alem disto, muitos templos xintoístas e budistas. Num destes tinham uma árvore com cerca de 1250 anos! De Takayama fomos directos para Kyoto. Para não variar, chegámos já tarde, quase 10 horas da noite. Ficámos numa pensão estrelinha de mochileiros barulhentos e pouco interessados em respeitar locais e tradições...enfim, problemas do turismo em massa. A cidade do protocolo ambiental tem muito para visitar! Ou não fosse esta uma das antigas capitais imperiais, cheia de palácios, templos e ruelas típicas bem conservadas. Patrimónios mundiais e classificados e demais tesouros nacionais, são aos pontapés. Para meu desgosto apenas pude ficar um dia – o que realmente não deu para quase nada. Mesmo assim, ainda visitei uns poucos templos e palácios embora não tenha visto aquele que seria o supra-sumo religioso, o chamado Golden Temple (Yukio Mishima escreveu um livro sobre este). Quando chegámos as portas fecharam-se mesmo a nossa frente. Cinco minutos depois das 5 e zás – acabou-se! Pelas 7, deixei as miúdas em Kyoto e o expresso Shinkansen até Tóquio. Elas ainda fizeram mais um dia em Kyoto, depois seguiram para Nara, passando finalmente por Hiroshima. Muitos kms é verdade mas voltaram para Inglaterra com uma série de estórias para contar.

Para além destas peripécias viajantes, assisti há uns dias atrás ao festival de fogo de artifício de Tsuchiura. Na verdade, trata-se de uma competição anual entre os fabricantes pirotécnicos. No ano passado, vi-lo do terraço da minha residência. Desta feita fui vê-lo ao vivo e a cores. Mas se o espectáculo foi bom e recomenda-se, o banho de multidão foi demasiado! Já disse que isto é coisa para não repetir. A tremenda enchente que confluiu naquela cidade esgotou por completo tudo quanto eram transportes e infra-estruturas públicas. As estradas cheias, carros parados, esperas de 2 horas para apanhar o comboio. Tudo e todos complemente parados!

Monday, September 10, 2007

Biombos

No último Sábado voltei ao festival de cinema do Brasil, aqui em Tóquio. O que isto quer realmente dizer é que já faz um ano que por cá ando nestas terras distantes! O tempo passa depressa! Tive mais uma reunião com o pessoal de Oxbridge e desta vez fomos visitar um Onsen (spa japonês) no bairro de Odaiba. Entrados no edifício, aquilo mais parecia uma feira popular! Cheio de barracas de comida e tendas de jogos, feito para esvaziar os bolsos dos mais incautos. Não me impressionou por ai e além. Melhor veio depois com uma bela churrascada no parque. Espaços como aqueles onde estivémos são raríssimos em Tóquio. Mas, vá lá, conseguimos encontrar um lugar onde alugam todo o material necessário para os assados. Logo, isto é só trazer a comida e as cervejas, monta-se o estaminé e toca de preparar uma tarde no relvado debaixo dos pinheiros ali em frente da baía de Tóquio. Por lá fiquei até ser hora de ir para o dito festival. Desta feita em vez dos anúncios, puseram um vídeo clip do Milton Nascimento e uma curta-metragem bastante cómica. O filme em si era decente mas um pouco a puxar a emoção fácil. A saída da sala ainda me entrevistaram para um filme de promoção do evento!
A Natureza continua a pregar umas valentes partidas – agora foi mais um tufão, desta feita cheio de energia. Vento e chuva para molhar e destruir tudo pela frente! De tal forma, que nos deram folga pela tarde e manha, para que todos pudessem chegar a casa a salvo. E realmente durante a noite isto foi um pandemónio! Um tal vendaval de ventos que o meu amigo Ujjal, que vive num prédio prefabricado (fez o erro de para lá se mudar porque era mais barato dizia – coisas de indianos!), não pregou olho a noite inteira com medo que o tecto lhe voasse!
Entretanto, fui ver uma interessante exposição em Tóquio. Chama-se Biombo e, tal como o nome denuncia, trata-se de uma mostra de alguns dos melhores exemplos deste tipo de arte decorativa/pintura que se encontram hoje espalhados pelo mundo inteiro. Pecas que chegaram dos Estados Unidos, da Holanda etc. Mais uma testemunha da influência dos portugueses neste lado do mundo. Ainda hoje eles os produzem mas de uma forma muito mais rara.

Sunday, August 26, 2007

Festival de Verão


A Kate está de partida. Vinda do interior profundo dos EUA, estado de Tenessee, veio para passar o Verão connosco. Trouxe na bagagem um problema interessante sobre nanofibras de carbono mas que infelizmente foi impossível de resolver com os nossos microscópios. Parte daqui a uns dias de volta para a terra do country e folk americanos, vai com a mala cheia de estórias para contar aos amigos sobre o país do sol nascente.
Por aqui, entre festivais de Verão e o Campeonato Mundial de Atletismo, o tempo continua quente e húmido. Mas, finalmente, arranjei tempo e espaço para fazer um pouco de praia. Uma coisa boa do NIMS é que, pelos meses de Julho e Agosto, eles invariavelmente reservam dois quartos de hotel na localidade costeira de Ajigaura para usufruto dos funcionários. Assim, querendo passar uns dias de praia é só fazer reservas na secção dos trabalhadores e depois apresentar o talão de reserva no hotel. Quarto pago cortesia do NIMS – sabe bem! Fomos três (eu, o Ujjal e a Chamini) para a praia, não muito longe de Oorai. Na verdade, já lá tinha estado há uns tempos atrás. Nessa altura, foi o Ujjal que fez a reserva. Mas tivemos um azar dos piores! Foi nesse fim-de-semana que houve o terramoto que quase destruiu a central nuclear e para além disso, tivémos de enfrentar um tufão. Claro que praia só vê-la da janela do quarto. Sábado e Domingos desastrosos aqueles! Desta vez, as coisas foram diferentes. Estava um sol radiante (que me deixou um escaldão como já não tinha há muito tempo!), nem uma nuvem no céu, a praia cheia de gente, e ainda deu para dar uns passos de dança havaiana. Engraçado é o sistema de segurança deles - um cordão para os banhistas não passarem um certo limite dentro da água. Na Austrália usam isto mas é mais para protecção contra os tubarões e as cordas são na verdade redes que impedem invasões subaquáticas! Aqui nada-se até à corda, digamos uns 100-200 metros e Prontos! Não há cá mais nada pra ninguém! Para além disto, os japoneses adoram as bóias e apetrechos. Engraçados era ver os duros dos yakusa-man cheios de tatuagens e com umas boiazitas em redor da cintura! Cómico no mínimo.
Nesse fim-de-semana fui também a Mito (capital do distrito de Ibaraki, do qual Tsukuba faz parte), para fazer mais uma apresentação sobre o meu país. Enfim, se isto continua, monto uma loja itinerante para fazer apresentações sobre Portugal. Coisas de ser o único tuga neste distrito! Enfim, lá fui eu até ao Centro Internacional de Mito para uma conversa de duas horas sobre Portugal. O Powerpoint era mais ou menos o mesmo de há uns meses atrás quando tive a apresentação aqui na minha residência. Na altura, não tive tempo para fazer as coisas ao meu gosto. Desta feita, as coisas correram melhor.
Entretanto, como disse acima, é tempo dos festivais de Verão aqui no Japão (Matsuri). Em Tsukuba, foi neste fim-de-semana e tivémos uma série de actividades programadas desde desfiles a maratonas de cinema. Já me esquecia – na senda dos festivais de Verão, o festival da Ninomiya House foi um sucesso. A banda de percussão taiko da qual fiz parte, foi bem recebida e tivemos direito a ovação e mesmo repetição! No final, foi uma noite engraçada para a qual muitos dos residentes ofereceram ajuda tanto na organização como na participação do espectáculo. E pela primeira vez, tive contacto com um grupo de capoeira aqui no Japão. Penas que apenas dois dos elementos falassem brasileiro. Mas soube bem ve-los aos pulos, a dançar ao ritmo do berinbau. Para vosso deleite, fica aqui a foto-testemunha do evento. Tive direito a Yukata (kimono de Verão) e um novo look pensado expressamente para o evento – lol.

Monday, August 13, 2007

Lições de História

Já estamos em Agosto. Este é o mes das cigarras e do tempo húmido, quente, abafado. Mal se respira, a cada passo transpiramos.
Os japoneses são engraçados. Poucos usam óculos de sol, isto embora por vezes o sol seja de tal forma forte que cega. Por outro lado, as japonesas andam sempre terrivelmente preocupadas com qualquer exposição solar. Não é tanto uma questão de melanomas mas mais uma tremenda susceptibilidade cutânea ao aparecimento de manchas e sardas permanentes. Assim, uma percentagem significativa da população feminina anda de chapéu de sol, ou quando saem a rua, levam todo o arsenal atrás, i.e. luvas, protector solar tipo ecrã total, chapéus, medidores UV, etc. Enfim, passam mal e praia nem sonhar para esta gente.
Entre saídas noctívagas em Roppongi, Shinjuku e Shibuya, Tóquio esta sempre a mexer, cheio de estrangeiros e com uma quantidade de discotecas que simplesmente não fecham, com muita gente na rua a qualquer hora da noite. Curiosamente, esta cidade tem uma movida de Jazz bastante interessante. Entre aqueles que já visitei conta-se o Cotton Club. Alguns destes clubes são até bem famosos como o piano bar do filme Lost in Translation, sito no impressionante edifício do Park Hyatt Hotel. Quanto as vistas nada a apontar, perfeito! No que toca a acústica - péssima. Os cocktails não são grande coisa e como seria de esperar é muito, muito caro. Para ir apenas em raras ocasiões, tipo para impressionar os amigalhaços ou as miúdas.
Entretanto, comecei finalmente as aulas de pintura (aguarelas japonesas ou sumi-e). Aos sábados de manha, semana sim, semana não, lá vou eu de pincel, tintas e telas para duas horas de rabiscos e gatafunhos, tinta derramada e espalhada como cinza em papel fino. A senseei (prof) não fala uma palavra de inglês o que por vezes torna a coisa algo complicada. Mas devo dizer que acho não só extremamente interessante mas mais do que isso, relaxante. Sinto-me como de volta aos tempos da pré-primária! Ainda nos Sábados comecei também umas aulas de yoga. Já por diversas vezes tinha pensado experimentar, agora foi de vez. Uma hora de alongamentos e contorcionismos, intervalados com sessões de relaxamento e meditação. A certa altura tanto era o relax e o calor lá fora, que quase adormeci estendido no tapete!
Na senda das actividades culturais ando também a aprender wa-daiko (ou Taiko, como é conhecido fora do Japão). São tambores tradicionais japoneses, alguns dos quais podem ser enormes, a pesar mais de 2 toneladas! Caríssimos também, pois são como obras de arte, feitos a partir de um único tronco de árvore. Isto pois dentro de uma semana temos o festival de Verão da Ninomiya House, onde moro. Durante as duas ultimas semanas, sextas pelas 19h00, tem sido duas horas de batucada forte, num ginásio que mais parecia uma sauna de tão quente e húmido, sem ar condicionado. Perdi, pelo menos litro e meio de água por transpiração, e aquilo puxa mesmo pelos braços, mas andar a bater nos tambores é do melhor que já vi para dar cabo do stress!
A última sessão do clube Oxbridge, levou-nos até à Base Naval Americana de Yokosuka. Realmente só vendo estas bases é que um individuo se apercebe do poderio militar dos USA. Num pais tão distante como o Japão, nesta que uma das varias bases americanas da região, eles nao so detem uma enorme extensão de terreno na entrada da baia de Tóquio, mas ainda por cima e o governo japonês que paga cerca de 70% das despesas! Trabalham aqui uns bons milhares de americanos, esta fatia do Japão funciona numa economia paralela. Funcionários e militares são pagos em dólares, tudo é transaccionado nessa moeda, os produtos são americanos, etc. Visitámos o navio principal da esquadra do Pacifico, o Blue Ridge. Este é o cérebro da esquadra, onde o comandante tem poiso. Durante as cerca de 4 horas que por ali andamos mostraram-nos o sitio onde desembarcou o primeiro navio americano no final WWII bem como onde foi assinada a rendição do Japão. Uma lição de história contemporânea. No final tivemos direito a jantar na messe dos oficiais.

Monday, July 23, 2007

Singapura, cidade-nação, cidade-leão

Princípios de Julho andei a passear por Singapura. É uma cidade, que faz simultaneamente de país também, sem muito para contar. Passei por lá uns poucos dias na ressaca de um congresso de materiais. Na verdade, fui sobretudo para participar num workshop de cálculos DFT aplicados ao estado sólido. Quatro dias para aprender (ou reavivar) as bases do Wien2k. Pormenores técnicos aparte foi uma óptima oportunidade para rever alguns dos meus ex-colegas e amigos assim como o meu Prof. de Cambridge.
A viagem de Tóquio para Singapura demora cerca de seis horas. Desta feita escolhi propositadamente a Singapore Airlines, mesmo sendo o preço que me propuseram umas poucas centenas de yens mais caro que o equivalente da JAL. Mas face a toda a publicidade que e amiúde feita a esta companhia estava curioso. Não me arrependi, tive o melhor serviço de bordo que encontrei até hoje em voos de longa e curta duração. E isto em económica. As imagens dos anúncios correspondem ao que se experimenta nestes voos. Não tenho experiência directa de como eram as viagens de avião há cerca de 30 anos atrás, mas acho que a Singapore Airlines conseguiu talvez manter aquele charme e requinte que era apanágio das companhias áreas nacionais nas décadas de 60, 70. O serviço (e as hospedeiras!) são simplesmente do melhor que já vi. Não me perguntem qual é a fórmula magica da companhia (se calhar muitos subsídios estatais) mas que o resultado final é agradável, lá isso é!
A primeira noite, passei-a num hotel na baixa de Singapura. Depois, o Andrew (Singapura) e a sua mulher (Malásia) serviram de anfitriões, pude pernoitar por cerca de 3 dias em casa deles. Também o checo David veio para a conferência junto com o Colin. Ora encontrámo-nos pois os cinco na mesma altura naquela cidade algo única, bem diferente de todas as outras aqui na região. Dificilmente se repetirá. Singapura é bastante pequena, e devido a isto, tudo está muito bem organizado, mesmo optimizado em termos de espaço e recursos. Não deixam no entanto de se ver alguns espaços verdes (as plantas crescem por todo o lado!) isto mormente o enorme densidade populacional. É preciso não esquecer que fica quase em cima do equador, o que quer dizer que o clima é simplesmente tropical o ano todo. Sem ar condicionado não se respira nem se sobrevive! Esta cidade-nação tem como símbolo o Merlion, ou seja um animal com corpo de sereia, e cabeça de leão. Ninguém me soube explicar como deve ser a sua origem! Aparte isto a cidade tem um porto enorme e serve quase como uma capital financeira e de serviços para toda a região envolvente.
Mas, helas, não tive muito tempo para turismo. De qualquer forma são poucos os monumentos, e verdade seja dita os atractivos locais. Interessante é a mistura absolutamente enorme de etnias asiáticas. Malaios, indonésios, indianos, chineses, etc...quase todos os povos da região estão ali representados. Isto faz desta cidade um caso bastante diferente dos restantes na região. A população é praticamente bilingue, mesmo poliglota, na medida em que tem varias línguas oficiais. O inglês, dos tempos coloniais, é uma delas. As vezes nem parece que estamos na Ásia! Para alem disso há uma forte comunidade britânica aqui instalada.
Melhor seria ter tido tempo para ir a Malásia ou Indonésia, ali mesmo ao lado, literalmente a poucos quilómetros – do topo do edifício mais alto de Singapura facilmente se avistam os dois países vizinhos. A pouco mais de 3 horas de carro, para Norte, fica Malaca, antiga fortificação portuguesa. Disseram-me que ainda se podem encontrar bastante vestígios da presença lusa por aquelas bandas. Talvez para a próxima tenha tempo para ver as Torres Petrona, em Kuala-Lumpur.

De regresso ao Japão, continuo as minhas incursões a Tóquio. No mes passado fui convidado para um jantar volante na residência do embaixador português para comemorar o Dia de Portugal. A casa estava cheia e fiquei finalmente a conhecer mais portugueses aqui residentes. Claro que a grande maioria vive em Tóquio! Pelas contas da embaixada não chegamos aos 100 no país inteiro...e dizer que fomos dos primeiros a aqui chegar! Há umas semanas atrás, fui de novo ver Kabuki. Desta feita não me impressionou tanto com anteriormente. Acho que da próxima tenho de tentar No mas este é ainda mais complicado! Finalmente, esta semana, encontrei mais um restaurante português, desta feita chamado Vilamoura. Fica no distrito de Ginza, uma espécie de bairro para ricalhaços com lojas da Chanel, Hermes, Ferrari, etc, etc. Caro mas o ambiente e comida eram bons.
Até a próxima!

Sunday, July 01, 2007

Bacalhau com Sumo (não, não é da Compal!)

Há cerca de umas semanas atrás (algumas...) fui assistir a um torneio de sumo com uns amigos meus (Olivier e Richard, dois franceses). Na altura faltou-me o tempo para relatar a história mas aqui fica.
Os torneios de sumo ocorrem seis vezes ao ano, geralmente mudando amiúde de cidade. Assim em Maio temos um dos três Torneios de Tóquio estando agora em Julho a decorrer o Torneio de Nagoya. Estas competições duram cerca de duas semanas e os lutadores são supostos lutarem entre si, nas suas diferentes divisões e em média uma luta por dia, de modo a ganharem pontos/combates. No fim, junto com as disposições das tabelas de lutadores, é declarado o campeão do Torneio. Consoante of número de combates e torneios ganhos o lutador poderá depois subir de divisão e eventualmente chegar à muito ambicionada e milionária posição de Grande Campeão, Yokozuna. Nesta, existe presentemente apenas um lutador, Asashoryu. Escusado será dizer que estes monstros de quase 2 metros e cerca de 200 kg, são adorados como semi-deuses pelos japoneses. São grandes mas longe de serem lentos. Para alem de uma forca extraordinária são extremamente ágeis e de uma flexibilidade espantosa. Na verdade todos eles têm de fazer a esparregata! Uns Van Dammes um pouco mais gordos, só isso! Mas o que me mais espantou foi de facto de haverem alguns europeus também inscritos como lutadores (a lista inclui búlgaros, georgianos, etc). Ao que parece há uma actividade forte de sumo na Europa, embora pouco desconhecida do público em geral.
Escolhemos o primeiro dia do torneio (para os últimos, fica quase impossível arranjar bilhetes) e começámos logo pelas 10h00 da manha a ver os combates das divisões juniores. Estes são ainda aprendizes, amadores que almejam chegar ao escalão Juryo. Assim ficámos até por volta da 1 da tarde quando começaram as divisões de médio escalão. A partir das 4 e até as 6 tivémos portanto a primeira divisão de lutadores. Aqui a sala encheu-se de espectadores. Logo pela manha a audiência era um espectáculo um tanto desolador pois poucos vêm assistir aos duelos a estas horas. Tínhamos uns lugares de bancadas tipo primeiro andar. Havia também plateia mas aqui os lugares são tipo japones (tem-se de se sentar no chão de pernas cruzadas todo o dia!). Alem de desconfortáveis, são caros e pouco espaçosos. Mas há os que pagam uma pequena fortuna para estarem nas primeiras filas logo ali ao lado da arena. E ainda se sujeitam a terem os lutadores lançados para cima deles, quando estes vêm projectados da arena. Ora levar com uma massa de 200 kg não é coisa que eu me queira arriscar! Ficava logo com os ossos feitos em puré!
Aparte as aventuras de Sumo, finalmente fui experimentar um dos poucos restaurantes portugueses de Tóquio. Recentemente dei-me conta que existem pelo menos dois restaurantes e, ao que parece são, do mesmo dono. Um serve como restaurante normal, o outro como casa de fados! Fui ao primeiro e não fiquei assim tão desagradado. Claro que a comida e adaptado ao gosto dos nipónicos mas sabe bem ver uma sala forrada de fotos de Lisboa, Galos de Barcelos e vinhos lusos. Engraçado, o cozinheiro era de Macau, o que explicava alguns dos pratos tipo fusão luso-oriental na ementa (para os curiosos: http://www.pjgroup.jp/manuel/).

Wednesday, June 20, 2007

Fotos da Tailandia

Sinto-me dormente, pouco me apetece andar a organizar as centenas de fotos que tiramos na Tailandia. Felizmente a Milica, mais activa, ja o fez e publicou-as na net:

http://picasaweb.google.com/milica.todorovic

Divirtam-se!

Sunday, June 17, 2007

Adeus tuk-tuks


Chegados a Ko Samui, apanhámos o ferry e partimos de imediato para o nosso destino final, a ilha de Ko Pha Nang. Uma vez no porto tínhamos a direcção de um hotel que o Zsolt e a Ângela nos tinham enviado. Eles precederam-nos por uns dias e, entretanto, tinham encontrado uns alojamentos na ilha. Agora só tínhamos de ir ter com eles. Só...O problema é que naquela ilha não havia nada que se parecesse com carreiras de autocarros nem tão pouco se avistavam táxis. Assim estávamos e entretanto íamos fazendo uns comentários sarcásticos acerca das carrinhas de caixa aberta a transportar pessoas às dezenas, tipos animais para abate. Não tardou muito para nos informarem que aquelas eram as carreiras de autocarro da ilha! Quanto aos táxis, eram pick-ups 4x4. Pedimos para nos levarem para a outra ponta da ilha onde se encontravam os nossos amigos e o hotel. Aqui disseram-nos que para lá chegar só de pick-up, exigindo um preço à cabeça algo exorbitante. Refilámos mas eles tinham o pão, o queijo e a faca na mão, e contrariados lá tivémos de pagar. Só depois da viagem feita é que compreendemos que o dinheiro era afinal justificado. É que tivémos de atravessar a ilha pela única estrada que faz Sul-Norte ; esta é de terra batida a cortar a selva da ilha ao meio. Digamos que foi uma experiência interessante ir sentado na caixa aberta da pick-up pelos trilhos de terra ainda molhada, enlameada, demais declives e buracos ali pelo meio da luxuriante vegetação tropical e com o lusco-fusco a fazer sentir-se. 40 minutos de viagem e lá chegámos ao hotel. Era já de noite, pelo que fomos imediatamente encaminhados para o nosso quarto e, depois de umas sandes, foi dormir. Quando acordei foi a grande descoberta. Estávamos hospedados num bungalow de madeira, dormíamos com redes de mosquitos, o clima era absolutamente do tipo tropical (quente, abafado e muitíssimo húmido!), mosquitos por todo o lado (menos na praia, vá lá!). A praia era ali a uma dezena de passos, depois de passar as barreiras de coqueiros que separavam o areal do terreno do hotel. Uma praia de areia finíssima, situada numa baía com água azul límpida, sem ondas, e muito pouca gente. Ora aqui está o paraíso! Naqueles dias, o meu quotidiano era praticamente só praia. Acordava, punha os calções, e ala que se faz tarde - directamente para a água, 24-25 graus, uma banhoca de coisa de uma hora. Logo que saía, ia directo para o bar do hotel para tomar o pequeno almoço. O bar do hotel era do género tropical, estão a ver, todo em madeira, rodeado de coqueiros, ali à beira-mar e a servir todo o tipo de batidos e fruta tropical. Banhoca seguida de um batido de manga, acompanhado de uma travessa de ananás, bananas, papaias, etc. Ó maravilha! Findo o breakfast, era tempo de ir deitar-me ao sol! Ehehe...boa vida! Enfim, ficamos quatro dias nisto. Mas é preciso dizer que às vezes também desatava a chover. O que vale é que era de pouca dura e com o calor que estava secava tudo num instante.
Findo o nosso tempo no paraíso, seguimos de novo para Banguecoque onde depois apanhámos o autocarro para Ayutthaya. Esta é a antiga capital histórica da Tailândia e como tal está repleta de templos e outro tipo de monumentos históricos. Mais Budas. Mas desta vez apanhamos um barco a motor que nos levou pelos canais e assim andamos a fazer o nosso tour da cidade. Ficamos um dia.
Findo isto apanhámos de novo a camioneta para Banguecoque e finalmente o táxi para o aeroporto. Estava na hora de deixar a Tailândia e voltar para terras nipónicas.
Adeus tuk-tuks.

Sunday, May 20, 2007

Viagens em primeira classe

Em Banguecoque ficámos apenas dois dias, o suficiente para ver de raspão um dos Palácios Reais e toda uma série de templos budistas. O budismo é de uma forca extrema neste país, estátuas de budas por todo o lado, até no caminho para o novo aeroporto. O nosso grupo era algo especial: muitos ficavam espantados pois éramos cinco investigadores, cada um com a sua nacionalidade e nenhum de nós a viver no seu país de origem – ora pois o multiculturalismo e globalização em acção.
Esta cidade, enorme, não deixa de ser uma interessante versão cosmopolita mas também algo sub-desenvolvida de outras capitais asiáticas. Uma cidade de milhões, com algumas infraestruturas irrepreensíveis, como o moderno e eficaz metropolitano, mas por outro lado o lixo e a pobreza grassam. Muitos farangs, em especial ingleses. Na verdade, por vezes, a Tailândia, em especial nos seus pontos mais turísticos, mais me pareceu uma ex-colónia europeia!
Banguecoque está repleta de irritantes tuk-tuks, um híbrido de motorizada de caixa aberta com táxi; a qualquer esquina, especialmente quando adivinham a presença de farangs (estrangeiros em tailandês), vemo-los surgir a recomendar lojas e sugestões de passeios turísticos (leiam os guias de viagens tipo Lonely Planet todos dizem – evitem os tuk-tuks!). Eles são como as moscas, muitíssimos e insistentes! E senão tivermos cuidado acabamos por gastar uma fortuna nas lojas de amigos, sócios e afins, onde, como por acaso, paramos durante os ditos circuitos turísticos de uma hora. Enfim, o que é preciso é ter muita paciência e negociar todos os preços, ficar bem claro onde queremos ir. Mas mesmo assim acabam por ser caros e os condutores não perdem oportunidades de tentar fazer uns desvios! Pois, queixem-se dos fogareiros! Venham pra Tailândia para ver como é que eles mordem! Isto era preciso guardar o dinheiro para a água e os repelentes de insectos!
Para umas vistas interessantes apanham-se uns barcos, que funcionam como taxis (tipo os vaporetos de Veneza). Por vezes perguntavam-me de onde era. Portugal. Portu-que? Sabe, aquele país ao lado da Espanha, na Europa. Ahhh! Raios, que humilhação! E de pouco valia dizer, o país do Figo (acho que de qualquer forma nestes dias é preciso dizer do Cristiano Ronaldo!). Detalhes aparte, muitos bazares onde se compra todo o tipo de marca e mercadoria pirateadas. Equipamentos de Mai Thai, o boxe tailandês, por toda a parte.


Depois de Banguecoque, dividimo-nos e eu, a Milica e a Chamini fomos para Chiang Mai, sita no norte. Comprámos passagens de comboio em primeira classe com dormida, e pensávamos nós que seguiríamos em compartimentos privados, ar condicionado, o luxo. Qual que! Chegámos e tudo o que nos deram foram uns os bancos que se desdobram para dar lugar a camas, e quanto a compartimentos individuais – nem sonhem - , o ar condicionado era uma ventoinha no tecto! Casa de banho é bom nem falar. E assim estávamos na primeira classe. Uma viagem pela noite fora mas que felizmente, com os meus tampões para os ouvidos e a máscara de noite (as luzes ficaram acesas) ainda deu para dormir uma horas. Chegados a Chiang Mai uma furgoneta do hotel onde ficámos veio-nos buscar. Entretanto, iam-nos dizendo que o campus da Universidade tinha sido cotado como o mais belo de todo o sudoeste asiático. Chegados ao hotel, não nos demorámos e começamos a deambular pela cidade. Ó tristeza! Aquilo mais parecia o Algarve no seu pior. Se Banguecoque tinha o seu quinhão de turistas e estrangeiros, Chiang Mai estava simplesmente apinhada, completamente invadida! Excursões para todos os gostos, bares australianos, ingleses, irlandeses, enfim estão a ver o filme, tipo Portimão ou Albufeira mas sem a praia. Ficámos apenas dois dias mas lá vimos mais uma série de templos (a esta altura já estava farto de tanto templo budista e mais as estátuas que pra lá andam). Numa das noites fomos ver um espectáculo de dança tradicional tailandesa onde também serviram jantar a preceito, típico. Foi o mais interessante da visita à cidade, com as danças das unhas e dos peneireiros, e tudo o mais.
Antes de partirmos, as miúdas queriam por forca experimentar massagens tailandesas. Ora como a maioria ganha em democracia, eu fui também. Ofereceram-nos um pacote de 2 horas: 1 hora de massagem de pés, 1 hora de massagem tradicional tailandesa. Para aqueles que não sabem a massagem a lá tailandesa é obra. Mais parece uma visita ao osteopata! É preciso ter uma certa flexibilidade pois eles puxam-nos e moem-nos e enfim, aquilo as vezes ainda dói e manda uns quantos estalos nas articulações. Mas no fim até que uma pessoa se sente bem. Seguimos de novo para Banguecoque onde no dia seguinte tínhamos de apanhar o avião para Ko Samui, uma das ilhas no Sul.

PS: Dentro de poucos dias estou em Lisboa; parto num tour da Europa por duas semanas – iupi!

Sunday, May 06, 2007

Alô, alô Banguecoque

Ora cá estou de volta das minhas mini-férias. Cerca de 6 horas de avião para cada lado e a Tailândia com um fuso horário de duas horas de diferença em relação ao Japão. Saímos de Banguecoque debaixo de chuva torrencial e aqui voltámos a Tsukuba para enfrentarmos uma irritante chuva miudinha.
Chego feliz de ter sobrevivido aos vorazes mosquitos daquelas bandas – estive a contá-las há pouco, picadas eram 17! E que insectos extremamente insistentes, só esborrachados é que desistiam! Enfim, mesmo picado, enfeitado de bolinhas vermelhas, o balanço é positivo.
Rewind...26 de Abril, chegámos (eu, a Milica e a Chamini) já de noite a Banguecoque, estava um calor húmido, daqueles que não deixa respirar. Esperávamo-nos um aeroporto novo, infelizmente longe de estar acabado, completamente funcional. Apinhado de turistas de todo o tipo, embora se note uma forte presença do clube dos mochileiros, peregrinos modernos à descoberta do sudoeste asiático. Á saída do aeroporto somos, de imediato, confrontados com filas caóticas de coloridos táxis (cor-de-rosa, laranjas, verde/amarelos, cores múltiplas, e espantem-se muito deles movidos a gás! A revolução do GPL está bem mais enraizada aqui do que em muitos outros países do primeiro mundo). Mas mais do que os táxis, aquilo que nos salta aos olhos é a ubíqua presença das imagens do Rei da Tailândia - até à exaustão, ao vómito. E pouco me importa que o considerem como um semi-deus, aquilo é uma doença, mais parece um caso de ditadura de personalidade tipo Turquemenistão. Nas ruas e estradas, amarelos, dourados, vermelhos, algum azul, são as cores dominantes.
Confortavelmente sentados num táxi rosáceo, depois de uma curta viagem de 20 minutos, avistámos o nosso hotel onde o Zsolt e a Ângela nos esperavam. Sito num típico bairro residencial de Banguecoque, escondido num beco quase impossível de encontrar, confundido na imensa desorganização urbana tão característica destas cidades asiáticas, um hotel-pensão aparentemente normal visto de fora, lá dentro todo um mundo diferente. O interior decorado a madeira, corredores que eram autênticos túneis recheados de trepadeiras, os quartos a parecer bungalows de praia (quase podia imaginar o mar ali a poucos metros!). Parece extravagante mas na verdade não chega a sê-lo, pois ali, no meio da cidade, mesmo com noite cerrada, deu para ver a luxuriante vegetação que fazem deste país uma quase contínua selva. Estas composições exuberantes são pois o pão nosso de cada dia na Tailândia. Olá Banguecoque!

Sunday, April 22, 2007

Filmezinhos de single malt

Kabuki é uma expressão sublime da cultura japonesa constituindo um dos três estilos característicos do teatro tipicamente japonês (os outros são Noh e Bunraku, para os curiosos: http://en.wikipedia.org/wiki/Japanese_theatre). Enfim, eu e mais umas quantas amigas partimos de Tsukuba e dirigimo-nos àquele que é o principal teatro de Kabuki em Tóquio, o Kabukiza. Uma sala tremenda, plena de historia e estórias, com rituais de backstage e uma tradição de teatro de quase século e meio (e também, diga-se, uns quantos incêndios, terramotos e bombardeamentos americanos, ao longo dos anos). Nós conseguimos preços reduzidos devido a uma promoção para estrangeiros e turistas. Foi assim que pagámos metade do preço normal para a sessão da tarde. Mas quando digo matiné, estou a referir-me a uma sessão das 15h00 às 17h00! Uns quantos intervalos e direito a jantar pelo meio. Muito tempo, não é? Mas acho que valeu a pena. A peca que vimos foi recentemente redescoberta, depois de passar séculos a ganhar pó num qualquer arquivo recôndito.
Decidiram portanto trabalha-la e, ao cabo de muito suor, o resultado é um trabalho que dura um dia inteiro de representação. No entanto, eles deixam-nos algum espaço para respirar, pelo que podemos assistir apenas a pequenos excertos (actos) em cada dia sem nos sentirmos demasiados perdidos. É como se o grande conjunto fosse composto de várias pecas. Estou a fazer-me perceber? Se calhar não.
Uma particularidade do Kabuki (pelo menos no tempo presente) é que todos os actores são homens. Entre estes há toda uma rígida hierarquia. Desde os que fazem o papel de mulheres e assim permanecem durante toda a sua carreira de actores, a outros que se especializam apenas em certos papéis (samurais ou padres, por exemplo), aos que apenas lá estão para mudar os adereços de cena. No meio disto, a generalidade do público faz gala ao ver Kabuki - um pouco como ir à opera na Europa. Toda a gente bem vestida, etc., lounge suits e formal casual, jeans OK, no trainers.
Entretanto, no outro dia foi dia de mais uma reunião do oxbridge club. Desta feita foi combinada uma prova de whisky single malte na embaixada britânica em Tóquio. Desta vez decidi convidar o meu amigo e colega indiano, Ujjal. Pelas 18h30 estávamos a chegar em Tóquio mais precisamente na entrada da embaixada. Esta parece mais uma verdadeira fortaleza e ao que me dizem, uma das maiores no Japão. Depois dos salamaleques de identificação, a prova decorreu bem e sem grandes sobressaltos aparte um ou dois japoneses mais esfusiantes e a esbracejar energeticamente.
Entretanto, ainda tentei ir assistir a uns filmes integrados num festival de cinema francês em Tóquio mas quando lá cheguei os bilhetes estavam todos esgotados! Enfim, tive de encontrar outra coisa para fazer na tarde de Sábado pelo que acabei no topo da Roppongi Hills Tower, uma das mais altas nesta megapólis. A vista é absolutamente fenomenal! Como estas coisas tem sempre algo de inesperado depois da visita ao museu de arte sito no último andar da torre, acabei por ser convidado para ir ver um desfile de moda. Foram-se os filmes franceses mas acabou por ser interessante mesmo assim.

Sunday, March 04, 2007

O (quase) triunfo das fitas

E assim fico mais velho, um ano. Posso voar até aos confins do sistema solar, viajar à velocidade da luz, mas isto só pára quando morrer. Há que tentar faze-lo portanto com qualidade. Mas não deixa de ser sempre um dia de fazer balanços (entre outros dias como durante o ano novo, quando se tomam daqueles resoluções com prazo de validade de pouco mais que uma semana – raramente resistem ao bolo-rei). Dobrada a casa dos 30, o que vejo é uma geração em que a maior parte de nós não está casada, não tem filhos, casa própria ou mesmo um emprego fixo, muitos vivem expatriados. Com que letra do abecedário nos rotularam?
Entretanto, tive uma inesperada prenda de aniversário – por duas vezes, uma das minhas fotografias foi escolhida como “runner-up” na competição de fotos científicas sobre o mundo à nanoescala. Estes concursos começam a ser quase ubíquos em conferencias que envolvem o nano e/ou microscopia. A ideia é tentar conjugar fenómenos científicos com arte. Aqui fica a imagem. O que é? Trata-se de uma nanofita de CdS (a espessura é da ordem das poucas dezenas de nm) a qual for deformada dentro de um microscópio electrónico. A imagem, depois de obtida, foi colorida com Photoshop, de tal forma que faz lembrar as explosões solares.

Sunday, February 25, 2007

Serendipity

A vida de expatriado tem coisas interessantes. Uma destas, porventura crucial, é sermos confrontados com a nossa capacidade de adaptação, de assimilar ditos choques culturais. Muitos daqueles que pela primeira vez se encontram estacionados num país estrangeiro experimentam tremendas dificuldades e, ao fim de uns poucos meses, talvez um ano, quando a sensação do novo se esvai e a saudade invade, desesperam por um rápido retorno. Quando decidi vir para o Japão, várias vozes me advertiram para o pior, que muito provavelmente não conseguiria enfrentar esta distante nação, de hábitos tão diferentes. Longe, quase um mundo de distancia, das minhas raízes. Sozinho, vir para o Japão viver, era duro, coisa de loucos. Tempus fugit, e passaram já quase seis meses desde que aqui cheguei. Devo dizer que, por ora, o balanço é positivo. Pontilhado por momentos de frustrantes barreiras comunicativas, de uma ansiedade constante relativa a atropelos dos inúmeros e invisíveis códigos de conduta japonesa. Mas os nipónicos são discretos o suficiente para fecharem os olhos, deixarem passar. Talvez seja por me encontrar numa situação algo privilegiada, uma vez que me encontro numa cidade de cientistas e rodeado de estrangeiros. Tenho um bom emprego (embora que temporário), vivo numa casa confortável, não me queixo do dinheiro que ganho (mais era bom, mas sempre o será, não é?). Ou talvez seja por encontrar ainda no dito período de graça quando sobeja o novo, ou talvez por esta não ser a primeira vez que estou a viver num país estrangeiro. A bem lembrar acho que a experiência de me mudar para Inglaterra em 2001 foi muito mais abrupta e stressante do que esta de vir habitar no Japão. Quaisquer que sejam as razoes, a verdade é que sinto-me bem aqui, tempo presente.
Falando um pouco mais sobre os códigos japoneses. Não deixa de me espantar a forma de eles se vergarem aos condicionamentos sociais, estes sobrepõem-se a qualquer pretensão individual. Por fim, temos a incapacidade do indivíduo de se impor como personalidade, o triunfo de uma sociedade amorfa onde movimentos reivindicativos e organizações de cidadãos tem reduzida expressão. Tudo isto parece resultar num nivelamento conformista onde qualquer ambição para além da média é uma extravagância rara, por vezes mal vista nesta sociedade extremamente hierarquizada. Será portanto natural que a criatividade seja um problema deste povo, a capacidade de impor o novo é fundamentalmente oposta à mentalidade reinante. Eu sei, são clichés o que escrevo, mas na realidade estes repercutem-se seriamente nas pessoas com que aqui me deparo. Uma interessante consequência disto é o Japão ser um país afável, sem grandes convulsões sociais, de reduzida criminalidade, onde tudo está organizado para a serenidade, a pouca confrontação. Na verdade, isto é como um jardim encantado onde uma pessoa, quase de forma inconsciente, se deixa paulatina e docilmente adormecer.
Mas já basta de divagações. Esta semana trouxe umas novidades – a primeira, um show de Flamenco (raríssimo por estas bandas) e depois, uma bem-vinda descoberta, o único Jazz-Bar cá do sítio. E com música ao vivo todos os Sábados! Entretanto, cá vai mais uma foto dos produtos das minhas aulas de caligrafia. Desta feita, expuseram na entrada da residência os nossos rolos de caligrafia – o meu é o segundo a contar da esquerda, com a palavra “Serendipity”.

Sunday, February 11, 2007

Vida conjugada - Passado, Presente e Futuro

Amanha é feriado.
Ainda ontem me passeei por Tóquio. Cheguei já tarde, sem tempo para fazer tudo o que queria. Tóquio também tem um Museum of Modern Art, no seu acrónimo a lembrar o de Nova Iorque. Depois de outras deambulações, encontrei a entrada pelas 4.30. O museu fechava às 5. Fiquei sem tempo para explorar os meandros artísticos do MOMAT.
Antes do MOMAT, passei pelo Museu Filatélico na intenção de acabar a secção japonesa da minha intermitente colecção de selos. Finalmente posso dizer que esta temporada no Japão já tem a sua marca ritual. Há uns tempos atrás, coisa de dois anos, comecei esta disciplinada colecta. Não lhe posso chamar um hobby pois não se estende continuamente no tempo. É uma colecção composta de momentos dispersos. A ideia é simples: em cada país que tenho vivido por mais de um mes, tenho recolhido todos os respectivos selos comemorativos de Ciência. Uma forma diferente de fazer um mapa dos sítios por onde tenho passado. Por ora, é assim mesmo, o tema limita-se às ciências exactas, por vezes tocando astronomia, biologia e medicina. Porque selos e porque Ciência? Selos, pois ocupam pouco espaço, não são caros e por vezes dizem-nos muito acerca das sociedades que os emitem. Ciência pois para além de ser o que faço (duhh!), achei que seria interessante fazer um levantamento gradual, embora que extremamente limitado, de como cada nação celebra as suas descobertas científicas. Talvez possa escrever qualquer coisa sobre isto daqui a uns anos.
Agora, estou a tentar encontrar uma razão para não sair, hoje choveu, estou com tosse e tenho o joelho num bolo. Com isto, acho que vou, infelizmente, perder a época de ski. Toda uma série de excursões, diferentes visitas e tours a serem organizados e eu sem poder tomar parte! Raios, a ver se para o ano que vem tenho mais sorte.

Tuesday, January 30, 2007

Tinta da China

Mais uma noite de tremores, daqueles só para chatear um gajo. 3 da matina de segunda-feira, ferrado no sono, quando sinto a minha cama tremer por cerca de 30 segundos. Nada de muito forte mas o suficiente para acordar despercebido e espantar o sono por umas horas! Enfim, temos de viver com estas coisas.
Nestes dias tenho andado ocupado a experimentar umas aulas de caligrafia japonesa. Dadas aqui na residência, vamos ter três sessões onde tentaremos copiar caracteres japoneses (kanji, hiragana e katakana) para o papel tipo mata-borrão. Como tinta, usamos sumi. O modo de preparação do sumi tem um certo cerimonial pois temos de raspar um bloco sólido numa placa própria usando dissolvente e uns movimentos ora de vaivém, ora circulares. Portanto, há uma receita a seguir e a preceito. O resultado final parece-se muito com tinta da china. Para aqueles que viram o filme de Peter Greenway “Pillow Book” podem contemplar um pouco o quão artístico e intrínseco da cultura asiática representa a escrita de caracteres. Caligrafia, mais que uma questão cultural, era usada antigamente para ilustrar o estatuto social e intelectual nas populações chinesa, japonesas e coreanas. Voltando ao presente... bem me esforço para reproduzir aqueles traços redondos e fugidos. Mas não me serve de nada bramir gestos inúteis com o pincel e esparramar caoticamente a tinta nas folhas A4 – há, de novo, uma forma e ordem correcta de os fazer, de quanta forca aplicar, de como posicionar as mãos. Cada fio do pincel tem de ser domado, a forma como cada um daqueles traços está desenhado é a diferença entre uma obra de arte e um rabisco sofrível. Caligrafia, agora percebo, é uma arte maior.
E foi nestes afazeres que no último Sábado acabei por ir a um museu dedicado ao poeta zen Mitsuo Aida em Tóquio (o qual era também admirado pelas suas qualidades de calígrafo). Devo dizer que muito do que estava escrito me passou despercebido (kanjis não são o meu forte!) - tinham umas traduções em inglês mas estas pareceram-me bastantes fracas na forma. Enfim, para mim foi mais uma questão de apreciar a beleza estética de bem escrever. Este museu fica no Fórum Internacional de Tóquio, o qual já aqui descrevi. Esta visita foi, na verdade, um compasso de espera para ir assistir a um leilão de arte moderna a convite da Keiko. Os lotes eram sobretudo arte moderna japonesa, séculos 19 e 20. Alguns exemplares interessantes e uma série deles a chegarem a uns valores exorbitantes. Os lances estavam tão rápidos que uma pessoa até tinha medo de se mexer não fosse o diabo tece-las e o homem do martelo enganar-se e pensar que estávamos a oferecer uns valentes milhões de ienes pelo colorido quadrado exposto à nossa frente!
Gambette kudasai!

Monday, January 08, 2007

O imperador do Japão

2 de Janeiro de 2007. Hoje foi dia da Família Imperial do Japão vir abençoar o novo ano assim como os seus súbditos. Esta é uma das raras ocasiões durante a qual se pode entrar nos recintos mais interiores do palácio e ver o Imperador “ao vivo e a cores”. A intervalos regulares de 50 minutos a Família vem até à varanda forrada de vidros à prova de bala e durante cerca de 10-15 minutos, polvilhados com pequenos discursos do Imperador, ali ficam a saudar o gentio. Escusado será dizer que quando ali chegámos, pelas 10 da manha, já uma multidão se agitava nas redondezas do palácio. Um forte dispositivo de segurança assegurava que ninguém entrava sem ser revistado. A porta do palácio e para acalmar os impacientes súbditos, alguns seguranças andavam a distribuir bandeirolas japonesas. Eu também recebi uma mas a bem-dizer foi logo para a mochila. Parece-me um tanto estranho andar a agitar bandeiras de outros países que o meu! Enfim, agradecido pelo recuerdo mas é só pra enfeitar a casa.
Finda a cerimónia dirigimo-nos para Ueno. Entretanto, numa das estacões de metro junto ao palácio, deparámo-nos com corredores repletos de imagens dos filmes do estúdio Ghibli (mais conhecido por fazer filmes de animação japoneses como A Viagem de Chihiro). Em Ueno, a nossa meta era encontrar umas termas especiais que, segundo o guia da Christina, eram algo especial pois as águas têm cor negra! E para ficar desconfiado, não? E depois, água de cor negra em Tóquio não deve ser assim tão difícil de encontrar! Enfim, ela não gostou muito das minhas piadas... Lá andámos (repetidamente) às voltas por Ueno até que finalmente tivémos de parar num posto da polícia onde perguntámos se nos podiam ajudar a encontrar as ditas. O prestável agente não sabia, puxou dos mapas e cartas, telefonou para as informações, enfim ainda passou uns bons 5 minutos até dar com o raio das termas ali do bairro. Em poucos minutos demos com um sítio recôndito, escondido numa ruela de casas de habitação. E qual o nosso desgosto quando ali chegados, demos de cara com uma porta fechada! Devíamos ter adivinhado pois se por aqui muitas das lojas e comércio fecharam de 31 a 3, porque não as termas? Ficou a vontade de tentar de novo. Tóquio tem sempre algo para descobrir.

Saturday, January 06, 2007

O-misoka 2007

Chegámos a Asakusa com tempo para gastar. Pouco passava das nove da noite mas já as ruas, ainda decoradas de Natal, se encontravam cheias de uma multidão ávida para receber o novo ano. A Christina (EUA), a Chamini (Austrália) e eu tínhamos decidido assistir àquela que é porventura a mais famosa celebração religiosa da passagem de ano em Tóquio. No centro do bairro de Asakusa, o complexo religioso que alberga o imenso templo budista Senso-ji, é uma referência perene para japoneses e turistas.
Saímos de Tsukuba sem jantar pelo que decidimos parar num restaurante de sushi. Uma casa de pasto banal, daquelas com um tapete rolante de onde uma pessoa retira pires ao sabor do apetite e os empilha como num jogo de Lego para controlar o que se vai comendo. Antes, passámos pela entrada do complexo onde as massas afluíam ordeiras. Imersas no frio seco e límpido de Dezembro, corredores pontilhado de luzes festivas, filas de gente esperavam pela sua vez para poderem entrar no Senso-ji quando este abrisse as suas portas daí a três horas, à meia-noite.
Dez horas e o restaurante fechou, para nosso desgosto. Entrámos no complexo curiosos pelas numerosas barracas de venda ali dispersas. Brinquedos, souvenirs, amuletos, roupas, comida e bebida, ... Engraçado como me lembraram na disposição aquelas que todos os anos povoam a Feira do Livro no Parque Eduardo VII - saudades de Lisboa.
Finalmente, à falta de melhor, seguimos o rebanho, juntámo-nos à multidão expectante. Ali esperámos, entre estórias e jogos tentando esquecer o tempo lento, teimoso. Passou-se hora e meia e o gentio engrossava a olhos vistos. Entretanto conhecemos uma rapariga de Zagreb que ali tinha vindo a conselho de amigos. A nossa nova companheira informou-nos de uma cerimónia que deveria ocorrer ali no recinto, talvez com mais interesse que calcorrear um templo de uma religião da qual nenhum de nós era praticante. Honestamente, fiquei aliviado por poder fugir da horda compacta e imóvel. Assim andámos a explorar o complexo até encontrarmos o sino de Senso-ji. Este sino é um importante símbolo do templo e, durante as celebrações do ano novo (o-misoka), é tocado 108 vezes (chamam-lhe joya-no-kane). Porquê 108? Segundo os costumes budistas 108 badaladas representam outros tantos defeitos humanos que expiamos (inveja, ira, desejo, ...). Uma lavagem espiritual, portanto. Desta feita, a cerimónia começou pouco depois da meia-noite terminando lá pela 1h30. Cada badalada foi executada por um cidadão diferente, normalmente membros ilustres da comunidade local. Entretidos com o sino, quase esquecemos o templo. Tinham aberto as portas e ondas de gente, controladas pela sempre zelosa forca policial, subiam a par e passo os degraus que os levavam até ao interior do Senso-ji.
E assim se recebeu 2007. Feliz ano novo!

Monday, January 01, 2007

Ir a banhos em Atami


Os Onsen (ou banhos termais, spas, como lhes queiram chamar) são extremamente populares aqui no Japão. Sendo este país uma cadeia de ilhas volcânicas, encontram-se registadas oficialmente cerca de 14000 fontes hidrotermais - muito por onde escolher, portanto! Há-as de todo o tipo e para todos os gostos: desde as simples termas de água doce, até às de água salgada, ácida ou sulfurosa. Este costume de “ir a banhos” começou há cerca de um milénio atrás. Inicialmente estava limitado às classes dirigentes e aristocracia. No entanto, quando os senhores de guerra descobriram as capacidades terapêuticas das fontes o seu uso cresceu consideravelmente até que, durante o período Edo, se popularizou por todas as camadas da população japonesa.
Três de nós decidimos ir explorar parte desta tradição nipónica. Para tal reservámos um hotel especializado sito na península de Izu, mais precisamente na cidade costeira de Atami. Ali chegados a primeira coisa que vimos ao sair da estacão de caminhos-de-ferro foi uma espécie de banhos para os utentes do terminal multi-modal. O pessoal senta-se ali a aquecer os pés na água durante uns agradáveis minutos, isto até o autocarro chegar. Bem melhor do que ficar a bater os dentes numa qualquer paragem! Ainda nos sentimos tentados...banhos para os pés ali, de graça e para todos, num dia frio e límpido de Inverno como aquele...mas enfim, a prioridade era dar uma vista de olhos pela cidade e tentar descobrir o posto de turismo. Como nenhum de nós é fluente em japonês precisámos de ajuda para encontrarmos o caminho para o hotel. Saídos do posto, fomos almoçar a um restaurante por eles recomendado. O conselho revelou-se acertado pois fomos não só bem servidos mas a comida era óptima. Atami é uma cidade costeira com uma forte tradição de pesca. Logo, como podem imaginar, o peixe era do mais fresco e da melhor qualidade (e assim foi por toda a estadia). No caminho para o hotel, ainda tivemos tempo para visitar umas arcadas comerciais onde vendiam uma miríade de doces e comida japonesa. Chegados ao hotel fomos rapidamente encaminhados para o nosso quarto. Um quarto tipicamente japonês com uma série de tatamis a cobrir o chão. Vista de um oitavo andar face ao mar, um espelho azul transparente, de fundos rochosos. Pouco depois, saídos do quarto para explorar o hotel, a certa altura quase no perdemos na confusão dos imensos corredores. Imaginem-se num enorme complexo onde todas as direcções estão em japonês, onde os funcionários só falam japonês, onde raramente nos cruzamos com outros clientes, onde a recepção se encontra no sexto andar (só depois de visitarmos quase todos os andares é que nos apercebemos desta! É que o hotel fica numa encosta.). Por fim, lá encontrámos o nosso propósito: as salas dos banhos. A principal tinha uma série de diferentes compartimentos e piscinas onde a água se encontrava a diferentes temperaturas (desde água fria até água a uns bons 45 graus). Ali mesmo ao pé uma escaldante sauna onde consegui ficar apenas 3 minutos. Neste hotel em particular, não havia banhos mistos embora estes sejam relativamente comuns por todo o Japão. Nas salas andávamos todos em pelota. Dão-nos umas reduzidas toalhas (tipo daquelas para secar os pés) com as quais somos supostos lavarmo-nos, secarmo-nos e se necessário cobrirmo-nos. Regra de ouro nestas coisas: antes de metermos sequer um dedo nos banhos temos de tomar um duche, ali na sala, para mostrar a todos os outros que estamos limpos para entramos na água comunal! Mas melhor foi realmente a piscina exterior. Senão tentem imaginar: água a cerca de 40 graus, temperatura exterior de 10, vista fabulosa para o mar, num dia límpido e soalheiro de Inverno. Piscina tipo rústica, ladeada de pedregulhos, quase no topo da colina. Lindo!
Como estávamos em regime de meia-pensão tivémos direito a um memorável jantar tipicamente japonês. Acreditem ou não para por a aparatosa mesa (para apenas três pessoas) demoraram alguns 15 minutos! Enfim digamos que o jantar era no mínimo copioso. Tínhamos ali de tudo! Desde Nabe de marisco até Shashimi e mesmo rosbife! Muito arroz, noodles e chá verde a acompanhar. Foi uma barrigada como já há muito não experimentava!